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Home > Publicações > Comunicados técnicos > Identificação molecular do vírus da Doença de Gumboro
 
 
  Identificação molecular do vírus da Doença de Gumboro  
     
  Maria Judite Bittencourt Fernandes
judite@biologico.sp.gov.br
Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Sanidade Animal
 
 
Número 140 27/07/2010

 
     
 

A doença infecciosa da bursa (IBD) é uma doença viral aguda altamente contagiosa de aves jovens. Também é conhecida como doença de Gumboro em razão da sua primeira descrição, em 1962, ter ocorrido na região de Gumboro em Delaware, nos EUA. O vírus da IBD (IBDV) pertencente à família Birnaviridae, apresenta um capsídeo icosaédrico, sem envoltório e cerca de 60nm de diâmetro, e dois sorotipos, 1 e 2, sendo que apenas o sorotipo 1 é patogênico para galinhas. O genoma viral é constituído por dois segmentos de RNA de dupla fita (segmento A e B).

A doença pode se manifestar de duas formas, a aguda e a subclínica, dependendo da idade das aves infectadas. A forma subclínica ocorre em galinhas com menos de 3 semanas de idade. Nesta fase ocorre o desenvolvimento do sistema imunitário das aves pela bursa de Fabrício, ou seja, os linfócitos B produzidos nela migram para os órgãos linfoides secundários. Como a bursa é o órgão alvo principal do vírus, uma infecção nesta fase, onde o sistema imune da galinha não está maduro, produzirá uma imunossupressão severa e prolongada.

A forma aguda ocorre normalmente em aves entre 3 a 6 semanas de idade e, neste caso, a imunossupressão é temporária com manifestação da forma clínica. Os sinais clínicos são: eriçamento das penas, diarreia aquosa ou com fezes esbranquiçadas, depressão, tremores, anorexia, desidratação e morte. A severidade da doença e suas consequências variam de acordo com a dose infectante, status imunológico e presença de fatores intercorrentes, que podem ocasionar quadros de mortalidade entre 5 a 30%.

Desde 1987 identificaram-se isolados virais de IBDV, sorotipo 1, nos EUA, causando surtos da doença subclínica em lotes vacinados. Esses isolados não neutralizados pela vacinação apresentaram diferenças antigênicas detectadas pelo teste de vírus-neutralização (VN) cruzada que os distinguiram em subtipos, mas ainda dentro do sorotipo 1. Esses vírus foram denominados de variantes e foram, posteriormente, encontrados também na Austrália, Nova Zelândia e Canadá.

Na Europa, nesta mesma época, ocorreram surtos da doença clínica, mas com uma mortalidade muito elevada, atingindo 100% em alguns lotes. Esses isolados não apresentaram mudanças antigênicas apesar dessa alteração na virulência. Os vírus responsáveis por esses surtos foram denominados de “muito virulentos”, em inglês “very virulent” (sigla vv). Nas infecções com esses vvIBDV, os sinais clínicos são similares aos produzidos pelos vírus convencionais, agora denominados clássicos virulentos, porém mais severos e exacerbados, além da alta mortalidade. Os vvIBDVs disseminaram-se para todos os continentes e, no Brasil, o primeiro relato ocorreu em 1999.

Assim, o IBDV, sorotipo 1, pode ser classificado de acordo com sua antigenicidade e patogenicidade em amostras clássicas-virulentas (cv), variantes antigênicas e muito virulentas (vv). Estudos demonstraram que a base molecular dessa antigenicidade e patogenicidade está localizada na região hipervariável do gene VP2 do segmento A que codifica a proteína VP2, responsável pela indução de anticorpos neutralizantes. As alterações genéticas ocorridas nesta região é que são as responsáveis pelo surgimento das variantes e vvIBDV.

O gene VP1 do segmento B que codifica a proteína VP1, uma RNA polimerase RNA dependente (RdRp), parece também apresentar um papel na virulência desse vírus. Alterações na virulência de outros vírus RNA, causada por mutações em suas RdRp, já são bem documentadas. Na verdade, sugere-se que a virulência dos vvIBDVs deve-se a um efeito sinérgico de mutações em ambos segmentos do vírus.

A importância da IBD na avicultura comercial decorre das perdas econômicas resultantes das altas taxas de mortalidade na forma aguda da doença ou das consequências da imunossupressão que reduz o desempenho produtivo do plantel por meio do aumento de infecções secundárias, baixa taxa de conversão alimentar e redução das respostas contra vacinas. No presente, a doença está bem controlada pela vacinação que é um dos principais métodos de controle da IBD aliado a medidas rigorosas de biossegurança em razão da alta resistência do vírus no ambiente.

As vacinas chamadas “fortes”, que são menos atenuadas e foram introduzidas com o aparecimento dos vvIBDVs, estão sendo substituídas recentemente por vacinas recombinantes ou associadas a anticorpos. Isto porque, apesar de reduzirem os altos índices de mortalidade da época e manterem a doença sob controle, essas vacinas menos atenuadas podem causar lesões na bursa, imunossupressão e especula-se o risco de reversão da virulência. Já foram constatados, no Brasil, casos de IBD após a vacinação com essas cepas menos atenuadas e recentes relatos de vírus rearranjados, provavelmente surgidos de troca genética entre vírus de campo e vacinas, coloca em foco o uso de vacinas vivas.

Os métodos de diagnóstico molecular baseados na RT-PCR são os mais utilizados hoje em dia por serem mais rápidos e sensíveis que os métodos convencionais de isolamento viral, ou VN, nada práticos para a rotina, assim como a técnica de ELISA de captura, que é utilizada para a diferenciação das cepas de IBDV. O teste de ELISA convencional é o método atual para pesquisa sorológica e também para programas de imunização e eficiência das vacinas.

O gene VP2, mais precisamente a região hipervariável, tem sido o principal alvo destes métodos. A identificação posterior dos vírus em cv, vv e variantes pode ser feita por uma variedade de testes pós-RT-PCR como a digestão por enzimas de restrição (RE) dos produtos da RT-PCR (RT-PCR/RE) e/ou sequenciamento. Já os resultados da análise do polimorfismo de comprimento dos fragmentos de restrição (RT-PCR/RFLP) são utilizados para a distinção dos vírus em grupos moleculares que também pode correlacionar com os tipos antigênicos e patogênicos. Recentemente dois tipos de PCR em tempo real foram desenvolvidos não só para o diagnóstico, mas para a diferenciação dos IBDVs.

A construção de árvores filogenéticas, baseada na sequência de nucleotídeos ou aminoácidos, também colabora no estudo e origem dos diferentes IBDVs. Outros genes como VP1 e VP3, em menores escalas, também são objeto de estudo por esses métodos.

O Laboratório de Biologia Celular, do Centro de P&D de Sanidade Animal, vem estudando esse vírus desde 1995 e, atualmente, realiza estudos moleculares com a implantação e padronização da técnica de RT-PCR tanto para a região hipervariável do gene VP2 como de um fragmento do gene VP1 para diagnóstico e diferenciação de amostras IBDV, além do sequenciamento e filogenia.

Baseado no gene VP2 de amostras de bursa de galinhas provenientes de granjas de corte e postura, principalmente de municípios dos estados de São Paulo e Paraná, pesquisadores do Instituto Biológico realizaram um estudo sobre a distribuição dos IBDV entre 1997-2005. Confirmou-se que, independente do tipo de granja, a identificação dos vvIBDVs teve início a partir de 1999, com aumento de casos entre 2001 a 2003 e posterior declínio, coincidindo com a introdução das vacinas fortes no mercado. Além disso, a presença também dos cvIBDV durante este período mostra a necessidade da manutenção da vacinação. Há relatos recentes de surtos da doença clássica em lotes não vacinados.

Já com o estudo adicional do gene VP1 foi possível detectar uma amostra que, pelo sequenciamento e filogenia do gene VP2, foi caracterizada como vv e pela sequência do gene VP1 como cv. A maioria manteve a classificação de vv ou cv definidas anteriormente pelo gene VP2. A amostra VP2vv/VP1cv é o primeiro relato de um rearranjo natural de IBDV isolado no Brasil. O seu sequenciamento completo, assim como estudos in vivo para confirmação de sua patogenicidade, deve esclarecer o real papel do gene VP1 na virulência dessa amostra.

O monitoramento contínuo dos IBDV é de extrema importância e fundamental não só para o conhecimento da epidemiologia molecular desse vírus que ainda tem um grande significado para a avicultura, mas também para o controle da IBD, na manutenção ou redefinição de medidas preventivas, vacinas efetivas e programas de vacinação.

Referências

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Fernandes, M.J.B. Análise molecular parcial dos genes VP1 e VP2 do vírus da doença infecciosa da bursa isolados no Brasil. 2010. 60f. Dissertação (Doutorado em Genética e Biologia Molecular, área Microbiologia) – Instituto de Biologia – Unicamp, Campinas, 2010.

Lukert, P.D.; Saif, Y.M. Infectious bursal disease. In: Y.M. Saif (Ed.). Diseases of poultry. 11th.ed. Ames: Iowa State University Press, p.161-179, 2003.

Müller, H.; Islam, R.; Raue, R. Research on infectious bursal disease — the past, the present and the future. Veterinary Microbiology, v.97, p.153–165, 2003.

Van den Berg, T.P. Acute infectious bursal disease in poultry: a review. Avian Pathology, v.29, p.175-194, 2000.

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