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Home > Publicações > Comunicados técnicos > Agentes microbianos associados ao trato genital de touros
 
 
  Agentes microbianos associados ao trato genital de touros  
     
  Margareth Elide Genovez - genovez@biologico.sp.gov.br
Eliana Scarcelli Pinheiro - pinheiro@biologico.sp.gov.br
Aline Feola de Carvalho - linebio@gmail.com
Centro de P&D de Sanidade Animal
 
 
Número 143 22/10/2010

 
     
 

O Brasil, com cerca de 207 milhões de cabeças de bovinos, maior rebanho comercial do mundo, vem se destacando no cenário internacional de exportações do setor agropecuário.

A inseminação artificial (IA) desempenha importante papel para a eficiente produtividade dos rebanhos bovinos. O maior entrave ao amplo emprego da IA no Brasil, ao redor de 6%, deve-se à necessidade de alterações profundas nos manejos zootécnico e sanitário, as quais implicam em mão-de-obra melhor qualificada e em boas práticas.

O congelamento do sêmen permite que agentes infecciosos sejam preservados e sobrevivam ao descongelamento, devido aos crioprotetores parte do extensor e tornam menos eficazes os antibióticos. Um ejaculado capaz de conter cerca de 7 x 109 espermatozoides, suficientes para fornecer centenas de doses de sêmen, comercializáveis em nível nacional e internacional, apresenta risco potencial para disseminação de doenças. Os padrões de certificação para o comércio de material genético, detalhados no Código Zoossanitário dos Animais Terrestres da Organização Mundial de Saúde Animal (OIE), são referência reconhecida pela Organização Mundial do Comércio. Embora esses padrões da OIE sejam rotineiramente utilizados pela maioria dos países, são apenas orientativos, pois esses devem estabelecer suas próprias exigências para importação de acordo com o nível sanitário e os riscos identificados no país de origem ou no produto a ser importado. Nos programas internacionais para doadores de gametas, são consideradas a saúde do doador, a condição sanitária do rebanho de origem do doador e ainda dos rebanhos do país de origem, como, por exemplo, ser livre de febre aftosa e brucelose.

No Brasil, o controle sanitário animal é regido pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), o qual segue as normas sanitárias internacionais da OIE. Ao MAPA, por meio da Divisão de Fiscalização de Material Genético Animal (DMG/DFIP), compete coordenar, promover e acompanhar a fiscalização da produção, processamento, comércio, importação e exportação de material genético animal. A ação coordenada pela DMG tem como base legal sêmen e embriões e se baseia na lei nº 6.446, de 5/10/1977, que dispõe sobre a inspeção e a fiscalização obrigatórias do sêmen destinado à IA em animais domésticos. A instrução normativa nº 48 de 17/07/2003 regulamenta que somente poderá ser produzido, comercializado e distribuído no Brasil, o sêmen bovino ou bubalino coletado em centros de coleta e processamento de sêmen (CCPS), registrados no MAPA que cumprirem os requisitos sanitários mínimos. Os reprodutores doadores de material genético devem estar inscritos no órgão competente do MAPA, no Estado.

A instrução normativa nº 47 de 23/10/2007 versa sobre os requisitos sanitários para a importação de sêmen bovino e bubalino oriundo de países extra-Mercosul. Estes são os requerimentos mínimos exigidos, mas não impedem que sejam ampliados para investigações de outras doenças. Para saber mais, acesse o site do MAPA (www.agricultura.gov.br).

A familiarização com a microbiota normal é um pré-requisito necessário para se conhecer a ecologia das doenças infecciosas. O hospedeiro e sua microbiota característica estão normalmente em estado de equilíbrio dinâmico, fornecendo condições favoráveis para a manutenção da população microbiana e não reagindo contra ela. Várias populações se interagem, sem prejudicar o hospedeiro, podendo beneficiá-lo. Destacam-se os micro-organismos ubiquitários isolados da cavidade prepucial de touros, Staphylococcus epidermidis, Streptococcus spp., Escherichia coli, Pseudomonas aeruginosa, Bacterium spp., Alcaligenes faecalis, Pseudomonas pyocynea, Proteus vulgaris, Micrococcus spp., Acinetobacter spp., Bacillus spp., alguns fungos e leveduras.

Essa diversidade de gêneros bacterianos contaminantes do sêmen "in natura" permanece preservada no sêmen industrializado, e pode se tornar oportunista resultando em diminuição da eficiência reprodutiva. Embora existam controvérsias quanto à interferência desses agentes sobre a capacidade fecundante do sêmen, sob certas condições, bactérias oportunistas podem migrar pelo trato genital de touros causando uretrite, vesiculite seminal ou epididimite e alterá-la significativamente em decorrência de intensa reação inflamatória. Pode também afetar diretamente o espermatozoide por competir pela utilização dos nutrientes naturais ou infectar fêmeas, resultando em baixas taxas de concepção ou altas taxas de mortalidade embrionária.

Frequentemente o animal ao se deitar expõe a mucosa peniana. Assim, micro-organismos originários das fezes e do solo podem interferir na microbiota natural da cavidade prepucial e uretra e atingirem o sêmen no momento da colheita do ejaculado. Agentes patogênicos podem alcançar a cavidade prepucial e o sêmen também por via ascendente nas doenças sexualmente transmitidas causadas por Mycoplasma spp., Ureaplasma diversum, Campylobacter fetus subsp. venerealis e Campylobacter fetus subsp. fetus, Tritrichomonas foetus, Histophilus somni e os vírus da IBR e BVD.

Por outro lado, a contaminação do sêmen pode ocorrer por via descendente como consequência de enfermidades sistêmicas específicas do aparelho reprodutor, e são causas reconhecidas de baixos índices de produtividade, tendo assim especial significado econômico, além de zoonótico, como Brucella abortus, Leptospira spp., Campylobacter fetus subsp. fetus, Chlamidophyla spp., entre outras.

Na IA, o sêmen é depositado diretamente no útero, e passível de infectar as fêmeas, uma vez que os micro-organismos ficam protegidos do efeito do pH ácido vaginal e da ação bactericida da secreção cérvico-vaginal produzida no estro. Inquéritos realizados em vacas, tanto durante o estro como durante a fase luteínica, na ocasião de transferências de embriões, revelaram a presença de população de bactérias comuns ao colo do útero e ao útero propriamente dito, especialmente nas vacas multíparas, similar quantitativa e qualitativamente a que se encontra na cavidade prepucial do macho. Não obstante, a introdução de quantidades massivas ou de combinações particulares de agentes exógenos pode debilitar as defesas do sistema imune e desencadear processo infeccioso.

Os mecanismos de defesa não-específicos do útero das fêmeas são muito potentes durante o cio, especialmente os baseados na ação dos polimorfonucleares, que atuam eliminando o excesso de sêmen e os corpos estranhos, incluindo vírus e bactérias. Devido provavelmente a esses mecanismos de defesa não-específicos, a patogenicidade do sêmen infectado no trato reprodutivo das fêmeas parece reduzida durante a fase éstrica, a qual tem papel decisivo na determinação da infecção bacteriana. O útero das fêmeas é susceptível às infecções bacterianas logo após o desaparecimento dos sinais externos de cio (metaestro), período que corresponde ao momento em que os níveis de estrógenos plasmáticos diminuem e os níveis de progesterona aumentam. Nas situações em que as fêmeas são inseminadas várias vezes, ou em que o cio não é cuidadosamente controlado, é possível observar a indução de endometrite e descargas vaginais devido ao uso de sêmen contaminado por bactérias.

De um modo geral, sabe-se que há poucos problemas reprodutivos na IA quando estão presentes bactérias em pequenas quantidades (cerca de 10 UFC/mL de sêmen diluído).

A colheita de sêmen por meio de vagina artificial propicia menor contaminação do que a massagem das vesículas seminais, mas, mesmo sob as melhores e adequadas condições de colheita, observa-se contaminação microbiana entre 150.000 a 650.000 micro-organismos/mL no sêmen “in natura”. Touros jovens geralmente mostram menor contagem bacteriana no muco prepucial e sêmen do que reprodutores idosos.

O número de bactérias presentes no sêmen “in natura” é inversamente proporcional à frequência de lavagens da cavidade prepucial e regiões adjacentes. A desinfecção prévia do prepúcio para a ejaculação influi na qualidade do sêmen, reduzindo-se com este procedimento cerca de 50% dos micro-organismos. Entretanto, lavagens muito frequentes podem tornar a cavidade prepucial vulnerável à colonização por um único agente, o qual poderá afetar a qualidade do sêmen. A predominância de uma única população de micro-organismo adaptada cuja multiplicação se torna exacerbada pode diminuir a vitalidade e a sobrevivência do espermatozoide por competir na utilização dos nutrientes e do oxigênio.

Os antibióticos comumente utilizados no extensor do sêmen são pertencentes ao grupo dos ß-lactâmicos, como penicilina e amoxilina e dos aminoglicosídeos, como gentamicina, estreptomicina e amicacina. A adição de antibióticos no meio e o posterior congelamento diminuem de forma considerável a carga microbiana presente no sêmen, porém estirpes resistentes à penicilina e à estreptomicina estão aumentado nos últimos anos.

Uma situação particular ocorre nos procedimentos de fertilização in vitro (FIV) de bovinos no que tange ao uso de sêmen industrializado. A fecundação propriamente dita é uma reação em cascata, desencadeada pela passagem do espermatozoide pela membrana pelúcida, penetração na membrana plasmática e seu alojamento no interior do citoplasma oocitário. Essa fusão envolve todo o espermatozoide, de maneira que a cauda também se integra ao citoplasma, fato esse fundamental para a estruturação do cito-esqueleto do primeiro ciclo celular. Baixas taxas de fertilização e prenhez devidas à contaminação por agentes ubiquitários e oportunistas, próprios da microbiota prepucial durante o cultivo e co-cultivo têm trazido à discussão a necessidade de controle bacteriano do ejaculado para este fim.

A técnica bacteriológica quantitativa de pour plate (OIE, 2003) era laboriosa e com elevado custo. O Laboratório de Doenças Bacterianas da Reprodução, vinculado ao Centro de P&D de Sanidade Animal do Instituto Biológico, padronizou o método de cultivo bacteriano qualitativo aliado ao quantitativo do sêmen pela técnica de contagem de bactérias viáveis por superfície (UFC/mL) com vantagens de praticidade e menor custo.

Diversos protocolos diagnósticos estão disponíveis e podem ser aplicados para a identificação de bactérias, fungos, leveduras, parasitas e vírus, incluindo as modernas técnicas moleculares que detectam quantidades mínimas de DNA dos inúmeros micro-organismos. Entretanto, a questão primordial é o custo adicional de tais procedimentos em relação aos benefícios reais.

O Brasil deve estar atento à vigilância sanitária, de forma a impedir que problemas sanitários se transformem em barreiras comerciais internacionais, gerando além de inúmeros prejuízos, a depreciação de seus rebanhos.

Referências

Genovez, M. E.; Scarcelli, E. P.; Faciolli, M. R.; Cardoso, M. V.; Texeira, S. R. Avaliação bacteriológica de sêmen “in natura” industrializado de touros. Revista Brasileira de Reprodução Animal, v.23, n.3, p. 403-405, 1999.

Office International des Epizooties. Terrestrial animal health code. Bovine and small ruminant semen. 2005. 14. ed. Disponível em: Link. Acesso em ago. 2005.

Mapa. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Disponível em: Link. Acesso em set. 2010.

 
 

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