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Home > Publicações > Comunicados técnicos > Colibacilose aviária
 
 
  Colibacilose aviária  
     
  Elisabete A. Lopes Guastalli
guastalli@biologico.sp.gov.br
Nilce Maria Soares
updb@biologico.sp.gov.br
Unidade de Pesquisa e Desenvolvimento de Bastos
 
 
Número 150 03/01/2011

 
     
 

Por ser privilegiado pela disponibilidade de recursos naturais, dentre eles a água doce, o Brasil se tornou uma potência agrícola, fato que assegura um fator diferencial para o futuro da avicultura brasileira. Neste aspecto a manutenção da saúde do plantel de galinhas produtoras de carne e ovos é imprescindível, em razão do modelo de criação ser intensivo e em alta densidade, o que favorece a propagação de microrganismos patogênicos entre aves. Dentre estes, a bactéria Escherichia coli (E. coli) tem sido subestimada nos últimos anos, desconsiderada como um importante patógeno, devido à atenção dada a outros agentes emergentes que foram introduzidos na avicultura, nos últimos anos.

A bactéria E. coli faz parte da microbiota entérica de mamíferos e aves, e sua colonização no intestino ocorre logo após o nascimento, embora o seu papel ainda não tenha sido completamente elucidado. Durante muito tempo foi considerada como um micro-organismo não patogênico, no entanto, alguns sorogrupos começaram a ser associados a diversas patologias no homem e nos animais domésticos. Atualmente, E. coli tem sido amplamente estudada, devido aos diferentes mecanismos de virulência da bactéria e por estar relacionada com diversas doenças no homem e nos animais.

Estudos relacionados à patogenicidade de E. coli mostraram que amostras patogênicas possuem mecanismos de virulência específicos. Com base nesses fatores de virulência, essas amostras foram classificadas em patótipos: enteropatogênicos (EPEC), enterotoxigênicos (ETEC), enteroinvasivos (EIEC), enterohemorrágicos (EHEC), enteroagregativos (EAGGEC), uropatogênicos (UPEC), meningite neonatal (MNEC), enteropatogênicos de coelhos (REDEC) e patogênicos para aves (APEC). Vários estudos têm demonstrado que alguns sorotipos de E. coli normalmente associados a mamíferos, dos grupos de cepas enterotoxigênicas (ETEC), verotoxigênicas (VTEC) e “attaching and effacing” (AEEC), podem estar hábeis para colonizar o trato intestinal das aves e, em alguns casos, causar alterações histopatológicas.

E. coli patogênica para ave, APEC, é considerada, por ornitopatologistas, como o patógeno de maior importância na avicultura industrial em todo o mundo, podendo ser responsável por diferentes quadros infecciosos, atuando como agente primário ou secundário. A bactéria pode afetar praticamente todos os órgãos das aves, causando infecções intestinais e extraintestinais, conhecidas por colibacilose.

Podem ser observados sinais clínicos inespecíficos nas aves infectadas como desuniformidade do lote, aumento de mortalidade, sonolência ou prostração, baixo consumo de ração e ganho de peso e diarreia. As lesões observadas nos quadros infecciosos são: enterite, artrite, onfalite, coligranuloma, salpingite, septicemia, aerossaculite. Os prejuízos econômicos acontecem devido ao aumento da mortalidade embrionária, menor desenvolvimento das aves, do aumento do índice de conversão alimentar, aumento da mortalidade e dos custos com medicamentos. A bactéria acomete aves em todas as idades, porém a susceptibilidade das aves e a severidade da enfermidade são maiores em aves mais jovens.

O cuidado com as aves nas primeiras semanas de vida é fundamental para que a futura poedeira possa atingir os índices zootécnicos projetados. Nas granjas de postura comercial, as pintainhas são recebidas com um dia de idade e podem chegar infectadas por E. coli patogênica. A infecção pode acontecer ainda no incubatório, através da transmissão transovariana ou através da contaminação dos ovos pelas fezes. As pintainhas infectadas que sobrevivem aos primeiros dias de vida podem ter o desenvolvimento comprometido, permanecendo portadoras e veiculadoras de E. coli, comprometendo assim os outros lotes da granja.

No trato digestivo das aves, E. coli pode ser encontrada em concentrações acima de 106 unidades formadoras de colônias por grama de fezes. Esse número pode ser ainda maior em aves jovens, quando a microbiota normal ainda não está estabelecida. Desse total, 10 a 20% são potencialmente patogênicas e, através das fezes, são liberadas para o ambiente, havendo assim uma excreção contínua de E. coli, tornando sua distribuição cosmopolita. As cepas permanecem nas criações por longos períodos, contaminando o ar, a ração e a água que servirão como via de disseminação.

A ocorrência da colibacilose resulta da interação e alteração do equilíbrio entre bactéria, hospedeiro e o meio ambiente. As condições ambientais e de manejo contribuem para a ocorrência da doença, pois a bactéria é considerada um patógeno oportunista. Altas concentrações de amônia no galpão, deficiências na ventilação dos ambientes avícolas, extremos de temperatura, umidade da cama, criações com alta densidade e deficiência no processo de desinfecção são considerados os principais fatores ambientais predisponentes. Vários sorogrupos de E. coli estão relacionados à colibacilose aviária que, segundo a literatura, 10-15% dos isolados de E. coli da microbiota intestinal de aves saudáveis pertenciam a sorogrupos potencialmente patogênicos para aves. Entre os sorogrupos APEC frequentemente descritos na literatura e que podem estar presentes na microbiota de aves sadias estão: O1, O2, O4, O6, O11, O21, O50, O36, O78, O88, O100 e O119. No Brasil, os sorogrupos mais prevalentes são O2, O21, O36, O50, O78, O88, O119 e O152. Estudo realizado no Brasil identificou os sorogrupos de 22 cepas de E. coli isoladas de pintainhas de postura comercial com um dia de idade: O1, O2, O5, O8, O15, O18, O22, O36, O64, O70, O75, O115, O132 e O141, sendo que os sorogrupos O1, O2 e O36, somaram 13,67% das amostras analisadas.

A contaminação fecal da casca do ovo fértil é uma das principais vias de transmissão de E. coli patogênica para as pintainhas, devido à penetração da bactéria da superfície do ovo para o seu interior. As pintainhas infectadas na fase embrionária e que sobrevivem ao nascimento e à disseminação da bactéria nos primeiros de vida da ave podem apresentar casos de infecções graves comprometendo o seu desenvolvimento, tornando-as portadoras e susceptíveis a várias enfermidades. As perdas econômicas são elevadas, podendo estender-se por toda vida da ave. Em aves com 4 a 9 semanas de idade, os quadros respiratórios causados pela E. coli são mais preocupantes. O trato respiratório superior é considerado a principal porta de entrada utilizada pela bactéria, que coloniza e se multiplica nesses tecidos, com posterior disseminação para os sacos aéreos e tecidos adjacentes. Agentes infecciosos capazes de lesar o epitélio respiratório ou que interfiram no sistema imune podem tornar as aves mais suscetíveis a colibacilose.

As aves adultas são mais predispostas à ocorrência de salpingite, pois esta infecção foi associada ao nível hormonal da ave de postura. Infecções experimentais têm mostrado que a colonização do oviduto por E. coli é maior quando o nível de estrógeno está elevado. Partículas de poeira podem conter de 105 a 106 UFC de E. coli por grama e, através da inalação de partículas contaminadas, as aves podem se infectar. As secreções das aves infectadas podem facilitar a disseminação da bactéria, que ocorre através do contato entre aves, contaminação da água de dessedentação ou da ração.

Para as pintainhas, a contaminação do ovo com fezes é a principal via de transmissão da bactéria, pois ela pode penetrar pelos poros da casca e contaminar o interior do ovo, causando no embrião um comprometimento do saco vitelino, ou até mesmo sua morte. Nesses quadros de infecção, E. coli pode ser isolada em até 70,0%. Além da contaminação fecal da casca do ovo, existe também a possibilidade de transmissão ovariana de galinhas infectadas para a progênie. E. coli pode ser introduzida na granja através da ração oferecida às aves quando as matérias-primas utilizadas para o preparo estão contaminadas. E. coli patogênicas podem ser introduzidas em lotes de aves comerciais através da água, pois, frequentemente, as amostras de água das granjas apresentam alta contagem de coliformes fecais, dos quais 95% é representado por E. coli.

As aves silvestres são consideradas importantes reservatórios naturais da bactéria, pois a mobilidade e a migração dessas aves são importantes fenômenos biológicos e um fator potencialmente crucial de epizootia. Fezes de roedores frequentemente contêm E. coli patogênica, assim como moscas e ácaros como o Dermanyssus gallinae, que também podem atuar como vetores na transmissão de APEC para as aves.

Referências

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Guastalli, E. A. L; Gama, N. M. S. Q.; Buim, M. R.; Oliveira, R. A.; Ferreira A. J. F.; Leite, D. S. Índice de patogenicidade, produção de hemolisina e sorogrupo de amostras de Escherichia coli isoladas de aves de postura comercial. Arquivos do Instituto Biológico, São Paulo, v. 77, n. 1, p. 153-157, 2010.

Menão, M. C.; Ferreira, C. S. A.; Castro, A. G. M.; Knöbl, T.; Piantinoferreira, A. J. Sorogrupos de Escherichia coli isoladas de frangos com doença respiratória crônica. Arquivos do Instituto Biológico, São Paulo, v. 69, n. 4, p. 15-17, 2002.

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