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Home > Publicações > Comunicados técnicos > Severa pinta preta
 
 
  Severa pinta preta  
     
  Jesus G. Töfoli
Ricardo J. Domingues
tofoli@biologico.sp.gov.br
Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Sanidade Vegetal
 
Fonte: Revista Cultivar HF - 08/09/2007
 
Número 59 18/02/2008

 
     
 

Caracterizada por intensa redução da área foliar e queda do vigor do tomateiro a pinta preta é uma das doenças mais destrutivas da cultura. Com a ausência de cultivarares e híbridos que apresentem bons níveis de resistência é imprescindível a adoção integrada de práticas de manejo e fungicidas específicos para o controle do fungo.

A pinta preta ou mancha de Alternaria, causada pelo fungo Alternaria solani, é uma das doenças mais destrutivas e freqüentes na tomaticultura brasileira. Nas folhas, a doença se expressa através de lesões necróticas de coloração parda-escura, com ou sem anéis concêntricos, bordos bem definidos, podendo ser circulares, elípticas ou irregulares. As lesões ocorrem isoladas ou em grupos e podem apresentar pronunciado halo clorótico nas folhas mais velhas.

A doença pode causar destruição total das folhas pelo coalescimento das lesões ou quando estas atingem as nervuras e impedem a circulação de seiva pelos tecidos. A diminuição da área foliar expõe os frutos a queimaduras pelo sol, tornando-os impróprios para a comercialização. Sintomas semelhantes, porém, com lesões mais alongadas e deprimidas, são observados nos caules e pecíolos. Manchas parda-escuras também podem ser observadas nos pedicelos e cálices das flores e frutos infectados. Os frutos afetados apresentam manchas escuras, deprimidas e com a presença típica de anéis concêntricos, que geralmente se localizam na região peduncular do fruto. Em condições de alta temperatura e umidade, as lesões apresentam um crescimento aveludado negro composto por frutificações do patógeno. Sementes infectadas por A. solani, quando semeadas podem resultar em plântulas com sintomas de podridão e anelamento do colo, tombamento em pré e pós-emergência e morte de plantas jovens.

A alta severidade da pinta preta é caracterizada por intensa redução da área foliar, queda do vigor das plantas, quebra de hastes, depreciação de frutos e morte de plantas. O aumento de suscetibilidade à infecção está sempre associado ao aumento da idade das plantas e ao início do período de frutificação. Os sintomas aparecem primeiramente nas folhas mais velhas e posteriormente evoluem para as partes mais altas da planta. O progresso da doença ocorre durante a frutificação, devido ao aumento da demanda de nutrientes para o desenvolvimento dos frutos,em detrimento dos órgãos formados. Solanáceas como as culturas de tomate, batata, berinjela, pimentão, jiló e a planta daninha Solanum nigrum (maria pretinha, erva moura) são as principais hospedeiras do patógeno.

Epidemiologia

A ocorrência de epidemias severas de pinta preta está associada a temperaturas diárias entre 25 e 32ºC e umidade relativa em torno de 40% durante o dia e 95% à noite. A. solani sobrevive entre um cultivo e outro em restos de cultura infectados, associado à matéria orgânica do solo, em solanáceas suscetíveis ou ainda nas sementes. Os conídios caracterizam-se por serem altamente resistentes a baixos níveis de umidade, podendo permanecer viáveis nestas condições por até um ano. Os conídios são dispersos pela cultura graças à ação da água e dos ventos. Uma vez presente na superfície do hospedeiro, estes germinam rapidamente, havendo a formação do pró-micélio e do apressório. O fungo pode penetrar diretamente pela cutícula ou através de estômatos e iniciar o processo de colonização. Ao invadir os tecidos o fungo provoca alterações em diversos processos fisiológicos, que se exteriorizam na forma de sintomas. As lesões surgem três a cinco dias após a germinação e o processo de esporulação a partir de lesões com 3 mm de diâmetro. A ocorrência típica de halos concêntricos nas lesões causadas por A. solani está relacionada a variações diurnas e noturnas de temperatura, umidade e radiação, que favorecem ou dificultam o desenvolvimento do fungo que conseqüentemente desenvolve-se na forma de setores.

Controle integrado

A adoção integrada de diferentes práticas é fundamental para um controle eficiente da pinta preta do tomateiro.

Plantio de sementes sadias

O uso de sementes sadias e/ou tratadas com fungicidas é recomendado como medida inicial para o controle da doença. Esta medida de controle visa impedir a ocorrência de tombamento em plântulas, bem como, evitar a entrada e disseminação da doença na cultura.

Adubação equilibrada

A pinta preta é mais severa em plantas mal nutridas e estressadas. Portanto, recomendam-se medidas como: correção do solo, emprego de adubação equilibrada, uso de matéria orgânica e adubação verde para a obtenção de plantas vigorosas. O uso criterioso de nitrogênio (N) e magnésio (Mg) pode reduzir a severidade da doença.

Práticas culturais

Práticas que contribuem para a redução da umidade, período de molhamento foliar e maior circulação de ar entre plantas tais como: evitar o plantio em áreas úmidas e maior espaçamento entre plantas são estratégias que visam reduzir o acúmulo de umidade favorável à pinta preta. As irrigações devem ser minimizadas em períodos críticos, devendo-se evitar regas próximas ao anoitecer.

A incorporação de restos culturais, a eliminação de plantas voluntárias, hospedeiros alternativos, bem como evitar plantios novos próximos a áreas em final de ciclo são medidas que visam diminuir as fontes de inóculo e impedir a disseminação da doença.

Devido à capacidade do patógeno sobreviver em restos culturais, recomenda–se a rotação de culturas por dois a três anos com gramíneas, leguminosas ou pastagem para que haja queda natural na população. Em cultivo protegido, a pinta preta pode ser reduzida pelo o uso de plásticos que absorvem os raios ultravioletas, pois na ausência destes, o processo de esporulação é inibido havendo redução dos níveis de doença.

Controle químico

O alto potencial destrutivo da pinta preta, aliado a cultivares e híbridos com baixos níveis de resistência, tornam necessária a utilização de fungicidas para o manejo da doença, sob condições favoráveis. Os fungicidas de contato à base de cobre (oxicloreto de cobre, hidróxido de cobre (Cu), óxido cuproso), ditiocarbamatos (mancozebe, metiram, propinebe), ftalonitrila (clorotalonil) e fluazinam, apresentam largo espectro de ação, baixa fungitoxicidade e conferem bons níveis de controle sob baixa pressão de doença.

São produtos que formam uma película protetora na superfície da planta e devem ser aplicados em caráter preventivo durante todo o ciclo da cultura. Estes fungicidas são inespecíficos, isto é, agem sobre múltiplos sítios do metabolismo do fungo, o que evita o surgimento de raças resistentes. Os fungicidas sistêmicos são produtos específicos que se caracterizam por promover elevados níveis de controle da pinta preta mesmo sob condições críticas. Apresentam, em geral, ação imunizante, curativa e antiesporulante e são menos sujeitos à ação de chuvas. A sistemicidade pode variar em função do grupo químico a que pertencem.

Os fungicidas iprodiona e procimidona, pertencentes ao grupo das dicarboximidas, promovem bons níveis de controle da doença. Apesar de serem considerados produtos de contato, apresentam ação de profundidade e ação curativa no início da infecção. Os triazóis tebuconazol, difenoconazol, tetraconazol e bromuconazol e o imidazol procloraz, típicos inibidores da biossíntese de ergosterol, caracterizam-se por ser altamente eficientes no controle de alternarioses em várias hortícolas. Alguns triazóis podem ser fitotóxicos a plantas jovens de tomate, sendo sua aplicação recomendada após o início do florescimento.

Desenvolvidas a partir de compostos naturais, as estrobilurinas caracterizam- se por apresentar excelente ação no controle da pinta preta. O mecanismo de ação destes fungicidas está relacionado à inibição da respiração nas mitocôndrias (complexo III). Além de ação fungicida, estas moléculas atuam de forma positiva sobre a fisiologia das plantas, através de aumentos da atividade da enzima nitrato-redutase, níveis de clorofila e da redução da produção de etileno. Tais efeitos contribuem para que as plantas sofram menor estresse no campo, assegurando maior qualidade e rendimento. As estrobilurinas apresentam ação prolongada, considerável resistência à lavagem e perfil toxicológico favorável.

Elevada ação alternaricida, resistência à chuva, baixo potencial de translocação e considerável período de proteção caracterizam famoxadona como um importante produto no controle da pinta preta. Pertencente à classe das oxazolidinedionas, é formulado em mistura com mancozeb e cymoxanil. Os fungicidas pirimetanil e ciprodinil, pertencentes ao grupo das anilinopirimidinas, representam opções eficazes de controle da pinta preta. O modo de ação destes produtos está relacionado à inibição da produção de proteínas, aminoácidos essenciais e enzimas associadas com a patogênese.

Pertencente à classe das carboxamidas, o fungicida boscalida possui ação protetora e sistêmica, atua sobre a germinação de esporos, elongação do tubo germinativo, crescimento micelial e esporulação. Boscalida também é classificado como um inibidor da respiração na célula fúngica, porém atua sobre o complexo II.

Os fungicidas sistêmicos, por apresentarem modo de ação específico são vulneráveis à resistência. Portanto, devem ser utilizados em mistura com fungicidas de contato ou alternados com produtos com diferentes modos de ação. O risco de resistência varia em função do grupo químico sendo: baixo para os produtos de contato (cúpricos, ditiocarbamatos e ftalonitrilas), médio para triazóis, anilinopirimidinas e carboxamidas, médio a alto para dicarboximidas e alto para estrobilurinas e oxazolidinadionas. O acibenzolar-S-metílico é capaz de ativar o sistema de defesa da planta. Atua induzindo a produção de PR-proteínas e enzimas que reduzem a ocorrência da doença. Para o manejo da pinta preta o produto deve ser utilizado dentro de programas de aplicação de fungicidas.

O controle da pinta preta deve ser realizado através de aplicações preventivas de fungicidas de contato no início do período vegetativo e do uso alternado de fungicidas sistêmicos e de contato a partir do aparecimento dos primeiros sintomas (florescimento e frutificação). Para o uso correto e seguro, os produtores devem seguir rigorosamente as recomendações do fabricante quanto: a dose, o número e intervalo de aplicação, o volume, o uso de Equipamento de Proteção Individual (EPI), o intervalo de segurança, o período de carência etc.

O patógeno

A. solani é um fungo mitospórico que possui conídios com 150 a 300nm de comprimento e largura entre 15 a 19nm, geralmente individuais, retos ou ligeiramente curvos. Corpo oblongo ou elipsoidal que afina-se em direção ao ápice, formando um bico comprido, sinuoso e ocasionalmente ramificado com 2,5 a 5,0nm de comprimento. Apresentam coloração palha, parda ou ouro claro, com nove a 11 septos transversais e pouco ou nenhum longitudinal. Os conídios são inseridos em conidióforos septados retos ou sinuosos que ocorrem isolados ou em grupo.

Curiosidades

Originário das regiões andinas do Peru, Equador e Chile, o tomateiro (Lycopersicon esculentum) alcançou popularidade e importância como cultura agrícola a partir do século XIX. Rico em vitaminas A, C e E, ß-carotenos, compostos fenólicos, ligninas e folatos, o tomate tem sido sugerido como um alimento funcional, por apresentar princípios ativos eficientes na prevenção de alguns tipos de câncer e doenças cardiovasculares. Atualmente, o tomateiro é a segunda solanácea mais cultivada no Brasil, sendo as regiões Sudeste e Centro-Oeste os principais centros de produção.

 
 
Uso de fungicida para controle da pinta preta em função dos estágios fenológicos do tomateiro
 
Lesões impedem a circulação de seiva pelos tecidos
 
O uso de sementes sadias e/ou tratadas com fungicidas evita o tombamento em plântulas
 
Práticas recomendadas para o manejo da pinta preta do tomateiro
 

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