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Home > Publicações > Comunicados técnicos > Trichoderma no controle de doenças de plantas causadas por patógenos de solo
 
 
  Trichoderma no controle de doenças de plantas causadas por patógenos de solo  
     
  Cleusa M. M. Lucon
mantova@biologico.sp.gov.br
Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Sanidade Vegetal
 
 
Número 77 18/08/2008

 
     
 

As doenças de plantas resultam da combinação de quatro fatores: hospedeiro suscetível, concentração adequada de estruturas infectivas do patógeno, baixa diversidade e quantidade de organismos supressores, além de condições ambientais favoráveis. Se algum desses componentes não estiver presente a doença não ocorrerá.

Dentre os fungos fitopatogênicos que causam grandes prejuízos à produção agrícola mundial, os de solo merecem destaque por afetarem praticamente todas as plantas cultiváveis, causando perdas de até 100% quando as condições encontram-se favoráveis para o seu desenvolvimento.

Dentre eles, ressaltam-se os fungos dos gêneros Pythium, Rhizoctonia, Fusarium, Phytophthora, Verticillium, Sclerotium e Sclerotinia que são muito importantes por serem encontrados em vários tipos de solo e afetarem diversas culturas de importância econômica, incluindo hortaliças, fruteiras, gramíneas e leguminosas, entre outras.

Os sintomas visíveis causados por esses fungos, na parte aérea das plantas, são tombamento, murcha, seca dos ponteiros, escurecimento ou podridão de tecidos, que refletem os danos causados às plantas, embora, na maioria dos casos, não seja possível identificar qual(is) o(s) patógeno(s) responsável(is) pela doença.

Os sintomas de tombamento de plântulas e podridão de raiz, por exemplo, são observados em várias culturas, podendo ser causados por Pythium, Phytophthora, Rhizoctonia ou Fusarium, de forma individual ou pela combinação de um ou mais destes patógenos. Portanto, devido à similaridade dos sintomas causados por esses organismos, torna-se necessária a identificação correta do(s) agente(s) causal(is) para que sejam tomadas as medidas apropriadas para o controle eficiente da doença.

Outro ponto importante que deve ser observado para a escolha do método de controle a ser utilizado contra fitopatógenos de solo é a capacidade de alguns deles sobreviverem como saprófitas (organismos que se alimentam da matéria orgânica em decomposição) e produzirem estruturas de resistência que permanecem viáveis por vários anos/décadas no solo, mesmo na ausência do hospedeiro e em condições adversas. É o caso do gênero Rhizoctonia que pode sobreviver de matéria orgânica em decomposição e permanecer viável no solo por muitos anos, sendo considerado como um patógeno de difícil controle pelos métodos convencionais.

No caso de doenças causadas pelos gêneros Verticillium ou Fusarium, devido à inexistência de fungicidas curativos para as plantas infectadas, mesmo que alguns produtos químicos reduzam a severidade da doença, a aplicação desses acarreta na elevação dos custos de produção e na redução da diversidade e quantidade dos microrganismos benéficos do solo.

Muitas das doenças causadas por fitopatógenos de solo resultam, geralmente, da redução da biodiversidade de organismos benéficos/antagonistas (opositores, adversários) nesse ambiente devido às práticas comumente empregadas na agricultura convencional, tal como a aplicação de fungicidas.

Devido ao exposto, torna-se essencial o desenvolvimento de estratégias alternativas capazes de controlar doenças causadas por fitopatógenos de solo. A demanda é por métodos alternativos que garantam a rentabilidade da atividade do produtor e que colaborem para a diminuição da aplicação de produtos químicos que poderiam causar riscos à saúde humana e ambiental.

O controle biológico, considerado como natural, constitui uma estratégia de grande interesse e importância para viabilizar a redução ou substituição do uso de pesticidas. Ele pode ser obtido pela manipulação do ambiente, de forma a favorecer a população dos microrganismos benéficos presentes, ou pela introdução massal de antagonistas previamente selecionados.

Espécies do gênero Trichoderma/Hypocrea encontram-se entre os agentes de biocontrole de doenças mais estudados no mundo, pois não são patogênicos; estão presentes em praticamente todos os tipos de solos, quando há matéria orgânica; são facilmente isolados, cultivados e multiplicados e colonizam com eficiência o sistema radicular de diversas plantas (Figura 1).

Várias espécies de Trichoderma possuem um arsenal de mecanismos de ação e produzem substâncias antimicrobianas que garantem um amplo espectro de atividade contra diferentes fitopatógenos, portanto possuem capacidade de controlar várias doenças. Além disso, algumas linhagens de Trichoderma promovem o crescimento de plantas pelo aumento na disponibilidade de nutrientes e produção de hormônios de crescimento.

Os mecanismos utilizados pelas espécies de Trichoderma para reconhecer, inibir ou atacar fungos fitopatogênicos ainda não são completamente conhecidos. Podem atuar por mecanismos diretos e/ou indiretos de ação, que incluem a antibiose - inibição ou supressão do patógeno pela produção de diversas substâncias tóxicas, voláteis e não voláteis, com amplo espectro de atividade antimicrobiana; a competição – disputam nutrientes e/ou espaço com o patógeno, levando o seu deslocamento do sítio de infecção, impedindo a germinação de seus propágulos ou o processo de infecção da planta; o micoparasitismo – o antagonista utiliza o fitopatógeno como alimento, pois crescem em direção ao patógeno, se enrolam em suas hifas, degradam a parede celular pela secreção de enzimas líticas (quitinases, celulases, glucanases e proteases) e delas se alimentam; a indução de resistência - algumas linhagens de Trichoderma possuem capacidade de desencadear uma série de alterações morfológicas e bioquímicas na planta, levando à ativação dos seus mecanismos de defesa contra vários fitopatógenos (Figuras 2-5).

Isolados de Trichoderma spp. podem ser aplicados separadamente ou em combinação com outros antagonistas ou, ainda, com fungicidas comumente empregados no controle de fitopatógenos de solo. Podem ser utilizadas linhagens selvagens ou previamente selecionadas como resistentes ao fungicida de interesse. As tentativas têm a finalidade de desenvolver produtos biológicos para serem utilizados no manejo integrado de doenças.

Podem ser empregados no tratamento de sementes, substratos de crescimento de plântulas ou solo para controlar patógenos como R. solani, Pythium spp. e Fusarium spp. que atacam tecidos juvenis, causando inúmeros problemas em viveiros ou na fase de implantação de mudas no campo.

Para o desenvolvimento de produtos de biocontrole, vários passos são necessários, tais como coleta, isolamento, seleção, identificação e caracterização do microrganismo; desenvolvimento do sistema de produção massal; otimização do processo; estudos de formulação e aplicação do produto; efetividade e tempo de prateleira; registro e comercialização do produto.

Apesar da existência de mais de 70 anos de estudos com espécies do gênero Trichoderma, somente na última década um maior número de produtos à base deste fungo tem sido disponibilizado comercialmente. Vários são os produtos à base de linhagens de Trichoderma spp. registrados, ainda em fase de registro ou estudo no Brasil e em outros países.

Os mais conhecidos e comercializados no Brasil são Trichodermil, contra vários fungos de solo (www.itaforte.com.br); Biotrich, com ação preventiva contra os gêneros Rhizoctonia, Sclerotina, Fusarium, Phytium, Phomopsis e Rosilinia (www.biovale.com.br); Biomix, utilizado para o controle de Oídio, Uncinula necator, em videira (www.cnptia.embrapa.br); Trichonat EF e Trichonat PM contra Botritys, Phytophtora, Verticilium, Colleotrotrichum, Armillaria, Rhizopus, Crinipelis (www.naturalrural.com.br); Tricovab, controla Crinipelis perniciosa, agente etiológico da vassoura-de-bruxa em cacau (www.ceplac.gov.br), entre outros.

O Laboratório de Bioquímica Fitopatológica do Instituto Biológico, em São Paulo, possui uma coleção com cerca de 500 isolados de Trichoderma spp., coletados em áreas de cultivo e resíduos de mata, em todo o Estado de São Paulo. Vários trabalhos de pesquisa vêm sendo desenvolvidos para oferecer alternativas para a produção orgânica de alimentos, a qual vem crescendo cerca de 10% ao ano no Brasil, e/ou para o manejo integrado de doenças. Os trabalhos atualmente em andamento visam oferecer produtos biológicos para o controle de Pythium aphanidermatum e Rhizoctonia solani, que causam prejuízos aos produtores na fase de produção de mudas de hortaliças; de Sclerotinia sclerotiorum, que causa o mofo branco em soja, e de Fusarium oxysporum f.sp. cubense, que causa o Mal do Panamá em bananeira.

Embora para se obter um processo mais saudável de produção agrícola, uma vez que doença de planta é sinônimo de desequilíbrio do sistema, o controle biológico deve ser acompanhado por outras medidas que tenham por objetivo equilibrar os agroecossistemas. Dentre as mais importantes podem ser mencionadas a preservação da biodiversidade, adotando-se práticas como manutenção ou incremento da matéria orgânica do solo; adoção de rotação de culturas que incluem adubos verdes, leguminosas e plantas de raízes profundas; cobertura apropriada do solo com diversas espécies de plantas; diversificação entre e dentro das espécies cultivadas; promoção da diversidade de plantas em áreas em que estejam sendo cultivadas com uma só espécie vegetal, com o plantio de outras espécies, preferencialmente árvores nativas e/ou implantação de faixas de vegetação intercaladas à cultura principal, criando corredores ecológicos.

Bibliografia consultada

Benitez, T.; Rincón, A.M.; Limón, M.C.; Codón, A.C. Biocontrol mechanisms of Trichoderma strains. International. Microbiology, v. 7, n. 4, 2004. Disponível em Link . Acesso em: 18 jun. 2008

Harman, G.E. Trichoderma spp., including T. harzianum, T. viride, T. koningii, T. hamatum and other spp. Disponível em Link . Acesso em: 20 jun. 2008.

Harman, G.E., Howel, C.R., Viterbo, A., Chet, I.; Lorito, M. Trichoderma species- opportunistic, avirulent plant symbionts. Nature Reviews Microbiology, v.2, n.1, p.43-56, 2004.

Howel, C.H. Effect of seed quality and combination fungicide-Trichoderma spp. seed treatments on pre- and postemergence damping-off in cotton. Phytopathology, v.97, n.1, p.66-71, 2007.

Howell, C. R. Mechanisms Employed by Trichoderma Species in the Biological Control of Plant Diseases:The History and Evolution of Current Concepts. Plant Disease, v.87, n.1, p.4-10, 2003.

Lewis, J.A.; Lumsden, R.D. Biocontrol of damping-off of greenhouse-grow crops caused by R. solani with formulation of Trichoderma spp. Crop Protection, v.20, p.49-56, 2001.

Monte, E. Understanding Trichoderma: between biotechnology and microbial ecology. International of Microbiology, v.4, p.1-4, 2001.

Silva, J.B.T.; Mello, S.C.M. Utilização de Trichoderma no Controle de Fungos Fitopatogênicos. Brasília: Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, 2007. Documentos 241, 2007. (Documentos, 241). Disponível em Link . Acesso em: 20 jun. 2008.

Sullivan, P. Sustainable Management of Soil-borne Plant Diseases Soil Systems Guide, 2004. p.1-16. Disponível em Link .  Acesso em: 04 jul. 2008.

 
 
Fig.1 - Isolados de Trichoderma spp
 
Fig. 2 - Inibição de F. oxysporum f.sp. cubense.(Foc) por cinco isolados de Trichoderma sp. (Tr), em meio BDA (batata-dextrose-agar).
 
Fig. 3 - Crescimento de cinco isolados de Trichoderma spp. sobre P. aphanidermatum (Pa), em meio BDA.
 
Fig. 4 - Micoparasitismo: Pythium sp. por Trichoderma sp. Fonte: Link
 
Fig. 5 - Inibição do crescimento de F. oxysporum f.sp. cubense em amostra de solo. A) com adição de matéria orgânica (esterco de ave+engaço de banana); B) sem matéria orgânica; C) com matéria orgânica + Trichoderma spp.
 

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