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Revisada em 08 agosto 2000

Encefalite bovina por Pasteurella multocida. Relato de caso


K.C. Lima, G. Nardi Júnior, M.G. Ribeiro, A.C. Paes, J. Megid, F.J.P. Listoni
Departamento de Higiene Veterinária e Saúde Pública – FMVZ/UNESP, CP 560, CEP 18618-000, Botucatu, SP. E-mail: REemail.gif (112 bytes) mi@fmvz.unesp.br

Resumo

O presente trabalho tem por objetivo relatar um caso de encefalite bovina por Pasteurella multocida. Ao exame clínico, o animal apresentava agressividade, tremores, sialorréia e secreção nasal purulenta. No terceiro dia de evolução da sintomatologia, o animal foi sacrificado in extremis, onde constatou-se à necropsia, rinite purulenta bilateral, pneumonia, congestão encefálica, grande coleção purulenta nas meninges, em região cortical e medular cerebral (lobos frontais). Do cultivo microbiológico do líquor, do material purulento encefálico e dos seios nasais frontais, obteve-se o isolamento puro de Pasteurella multocida.

Palavras-chave: Pasteurella multocida, encefalite bovina.


Abstract

Bovine encephalitis by Pasteurella multocida. A case study.

The present study objective report a case of bovine encephalitis caused by Pasteurella multocida. To the clinical exam, the animal presented salivary and purulent nasal secretion, tremors and aggressiveness. In the third day of evolution the animal was sacrified in extremis. To the necropsy, bilateral purulent rhinitis, pneumonia, encephalic congestion and great purulent secretion in the meninges and the cortical and medullar cerebral area (frontal region) was observed. From the microbiological culture of the liquor, purulent encephalic and nasal secretion material, there was obtained a pure isolation of Pasteurella multocida.

Key words: Pasteurella multocida, bovine encephalitis.


Microrganismos do gênero Pasteurella têm sido associados, como agentes primários ou oportunistas, à diferentes manifestações clínicas em animais (Radostitis et al., 1994).

Na espécie bovina, a Pasteurella spp. está relacionada predominantemente a quadros de pneumonia, septicemia hemorrágica, "febre do transporte" e mastite (Smith, 1993; Radostitis et al., 1994).

As infecções pulmonares por Pasteurella multocida (P. multocida) são consideradas uma das principais causas de prejuízo à exploração da espécie bovina (Smith, 1993). A P. multocida pode ser comumente encontrada na microbiota do trato respiratório alto de bovinos, manifestando sua ação patogênica a partir de determinados fatores, considerados predisponentes (Weekley et al., 1998a; Radostitis et al., 1994). Dentre estes fatores, incluem-se a manutenção de animais em condições de alta umidade, ventilação inadequada, alta flutuação térmica, ambientes fechados com elevado número de animais, procedimentos de manejo que condicionem situações imunossupressivas (transporte), má nutrição e a ocorrência de infecções pulmonares por outros microrganismos (Smith, 1993; Túry et al., 1996; Weekley et al., 1998b).

A ocorrência isolada ou a combinação destes fatores predisponentes determinam a elevada multiplicação da P. multocida no trato respiratório alto dos bovinos. A partir de determinados fatores de virulência (fímbrias, cápsula, proteases, leucotoxinas e endotoxinas) e/ou por ação direta, a P. multocida desencadeia um severo estado inflamatório pulmonar, com grande aumento da permeabilidade vascular, seguido de exsudação tissular, que evolui para processos supurativos, hemorrágicos e/ou fibrinosos (Smith, 1993; Weekley et al., 1998b). A patogenicidade do agente no trato respiratório promove lesões em diferentes graus (desde rinite à extensas áreas de pneumonia), podendo ocasionalmente, disseminar-se via sistêmica para outros órgãos, incluindo o encéfalo (Radostitis et al., 1994a).

Os casos de encefalite por P. multocida em animais domésticos e/ou de interesse econômico são considerados raros (Goto & Itakura, 1975; Mandorino et al., 1977). A infecção encefálica pelo agente tem sido descrita em ovinos (Biester et al., 1942), bovinos (Shand & Markson, 1953; Rose & Rac, 1957; Goto & Itakura, 1975; Mandorino et al., 1977), cães (Rogers & Elder, 1967) e búfalos (Rao, 1971). Em virtude da escassa literatura referente ao assunto, o presente trabalho teve por objetivo relatar um caso de encefalite bovina por Pasteurella multocida.

Foi encaminhado ao serviço ambulatorial da disciplina de Enfermidades Infecciosas dos Animais da FMVZ-UNESP/Campus de Botucatu, SP, um bezerro da raça Nelore, de aproximadamente oito meses de idade, apresentando sintomas respiratórios e neurológicos. Na anamnese, o proprietário relata que os sintomas neurológicos ocorreram posteriormente ao agravamento do quadro respiratório.

Ao exame clínico constatou-se inicialmente sialorréia, secreção nasal purulenta, tremores e agressividade, evoluindo dois dias depois para decúbito lateral, opistótono e movimentos de "pedalagem". O animal permaneceu em observação por três dias, período em que foram colhidos líquor e sangue para exames laboratoriais complementares. Ao final do terceiro dia o bezerro foi sacrificado in extremis, onde constatou-se à necropsia, áreas de pneumonia em fase de hepatização vermelha e rinite purulenta bilateral, com seios nasais frontais apresentando grande quantidade de material purulento (Fig. 1). À abertura da caixa craniana, verificou-se congestão encefálica e grande coleção purulenta nas meninges e em região cortical e medular cerebral (Figs. 2 e 3).

Do cultivo microbiológico do líquor, do material purulento encefálico e dos seios nasais frontais obteve-se o isolamento puro de Pasteurella multocida (Fig. 4), classificada a partir das características de cultivo, morfo-tintoriais e bioquímicas (Krieg & Holt, 1994).

Fig. 4

Tonalidade branco-acinzentada de colônias, não hemolíticas, de Pasteurella multocida, em cultivo de 24 horas, no meio de ágar-sangue.

 

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As encefalites na espécie bovina caracterizam-se pela grande complexidade etiológica. Diferentes causas têm sido atribuídas à ocorrência das encefalites bovinas, entre as quais merecem destaque a raiva, encefalite herpética bovina, listeriose, poliencefalomalácia, encefalite espongiforme bovina, meningoencefalite tromboembólica, toxoplasmose, além de distúrbios neurológicos secundários à neoplasias, infecções micóticas, traumas, carências nutricionais (magnésio), patologias degenerativas, ou ingestão de plantas tóxicas (Smith, 1993; Radostitis et al., 1994).

No presente relato, os sintomas clínicos, bem como a evolução observada no animal, são compatíveis com grande parte das enfermidades acima relacionadas, caracterizadas por uma ampla variedade de sintomas neurológicos, requerendo portanto, para o diagnóstico definitivo, exames complementares in vivo e/ou pós-morten.

À necropsia do animal, constatou-se lesões supurativas pulmonares, encefálicas (Figura 2 e 3) e em seios nasais frontais (Fig. 1) que sugeriam agente causal de origem bacteriana, confirmado pelo isolamento de P. multocida, em cultura pura, do líquor e do material purulento proveniente do encéfalo e dos seios nasais (Fig. 4). Entretanto, Smith (1993) refere o isolamento concomitante de P. multocida e Haemophilus somnus - agente da meningoencefalite tromboembólica - em casos de encefalite bovina, secundários à afecções respiratórias, embora este último microrganismo não tenha sido pesquisado no presente relato.

A presença de rinite purulenta, pneumonia em fase de hepatização vermelha e áreas congestas e supurativas em região cortical e medular encefálica, também têm sido evidenciadas em casos de encefalite por P. multocida em animais domésticos (Goto & Itakura, 1975; Mandorino et al., 1977).

Apesar da P. multocida ser considerada um patógeno associado principalmente à infecções do trato respiratório dos animais, especialmente da espécie bovina, o microrganismo pode disseminar-se por via sistêmica e atingir outros órgãos, como o encéfalo (Radostitis et al., 1994). Biester et al. (1942) e Mandorino et al. (1977) têm relacionado a ocorrência de encefalite em ovinos e bovinos, respectivamente, secundária à quadros iniciais de sinusites e/ou pneumonia, sugerindo nestes casos, a disseminação hematógena como via de infecção comum da P. multocida. Entretanto, Rogers & Elder (1967) e Mandorino et al. (1977) referem a possibilidade de infecção encefálica por P. multocida de origem pulmonar, em animais, pelos nervos óptico e olfatório, respectivamente.

No presente caso, a ocorrência de sintomas neurológicos posteriormente à manifestações respiratórias (rinite purulenta e pneumonia), sugerem a disseminação hematógena da P. multocida do trato respiratório para o encéfalo, de forma similar ao descrito por Biester et al. (1942) e Mandorino et al. (1977), ou mesmo por via nervosa, pelos nervos óptico ou olfatório, conforme postulado por Rogers & Elder (1967) e Mandorino et al. (1977).

O isolamento de P. multocida do encéfalo de bovinos apresentando sintomas nervosos é considerado raro na literatura (Goto & Itakura, 1975; Mandorino et al., 1977), demonstrando a importância de procedimentos laboratoriais complementares, no diagnóstico diferencial das encefalites em animais domésticos e/ou de interesse econômico.


Referências Bibliográficas

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Recebido para publicação em 12/8/99