Quinta-Feira, 2 de Outubro de 2014
Instituto Biológico
     
  Grandes nomes  
     
  Ada Leda Rogato  
  Adolpho Martins Penha  
  Agesilau Antonio Bitancourt  
  Arthur Neiva  
  Benedicto Pedro Bastos Cruz  
  Clemente Pereira  
  Henrique da Rocha Lima  
  Henrique Sauer  
  Ignez Koseki  
  Joaquim Franco de Toledo  
  José Reis  
  Júlio Rodrigues Neto  
  Magali D´Angelo  
  Manuel Alberto da Silva Castro Portugal  
  Maria Pereira de Castro  
  Mario Barreto Figueiredo  
  Mário D’Ápice  
  Mário Meneghini  
  Mário Paulo Autuori  
  Oswaldo Giannoti  
  Paulo de Castro Bueno  
  Romeu Macruz  
  Vicente do Amaral  
  Victória Rossetti  
  Wilson Brandão Tóffano  
  Zuleide Alves Ramiro  
     
   
     
  Henrique da Rocha Lima  
 

Um processo do conhecimento contemporâneo 1879 – 1956

 
  Márcia Maria Rebouças
reboucas@biologico.sp.gov.br
Museu/Centro de Memória

 
     
 
O começo

Henrique da Rocha Lima nasceu no Rio de Janeiro no dia 24 de novembro de 1879, tendo como pais Henrique Carlos da Rocha Lima e Hermizilia Cássia Rocha Lima. Inicia seus estudos nas escolas: Colégio Progresso no Rio de Janeiro, depois Colégio São Vicente de Paula em Petrópolis e, de volta ao Rio de Janeiro, freqüenta as escolas Escola Cândido Lago, Ginásio D. Pedro II e Externato Aquino.
rocha lima

Em 1901, forma-se Médico pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Mas, antes de se formar, sempre ativo para encontrar novos rumos para o seu conhecimento, freqüenta o Instituto Soroterápico, em Manguinhos onde encontraria Oswaldo Cruz. Em 1952, Rocha Lima diz do seu primeiro encontro com esse importante personagem da vida científica: “Não foi muito favorável a primeira impressão em mim despertada, pois sua figura um tanto estranha, sua longa sobrecasaca preta e sua cartola de forma inusitada, os seus abundantes cabelos ligeiramente grisalhos e bigodes alevantados, junto ao ar circunspecto se atritaram um pouco com a aversão, que me é própria, por qualquer aparência esdrúxula despertando suspeita de intencionalmente calculada”. Mas, logo depois esse sentimento pela aparência esdrúxula, como Rocha Lima nominou a Oswaldo Cruz, se dissipa para tomar conta de seu interior, o sentimento de admiração e respeito pelo homem que se impunha diante de si.

Rocha Lima que antes pensava em seguir os passos de seu pai, Médico Clínico de muita fama do Rio de Janeiro, agora se deleitava com os ensinamentos do Mestre que convivia em seu pequeno laboratório. Assim, também relembra em 1952 o fato exposto “Aí nasceu silencioso o desejo de afastar-me do muito auspicioso caminho da clínica, por que deveria enveredar, para abraçar qualquer forma de atividade junto a esse jovem cientista e mestre encantador”.

Em 1901, Rocha Lima defende sua tese sob o tema “Esplenomegalia nas infecções agudas” e, logo depois, em 1902, vai para a Alemanha onde freqüenta vários cursos. Nos Laboratórios de Microbiologia e no Instituto de Higiene de Berlim e de Anatomia Patológica, estagiava nas horas vagas, procurando não estar ausente do conhecimento que queria ter para demonstrá-lo após seu retorno ao Brasil. Martin Ficker lembra Rocha Lima, quando de seu estágio no Laboratório de Microbiologia, após alguns anos, mais precisamente em 1940 “tive a maior satisfação que um professor pode ter: o convívio de um aluno excepcionalmente talentoso. Nesse talento excepcional, Rubner, Orth, Kaiserling, Duerck e eu, descobrimos logo um aluno predestinado, ao qual era pouco o que um professor poderia acrescentar”. “Como biologista nato, Rocha Lima nunca perdeu de vista a complexidade das manifestações da vida, e nela, a engrenagem maravilhosa dos processos vitais”. “O segredo do seu êxito: a feliz combinação da Microbiologia com a Anatomia Patológica, de que resultaram a suas mais importantes realizações científicas, e que constituiu o sólido alicerce da grande obra que ele deveria realizar no domínio da ciência biológica pura e aplicada”.

Em 1902, Oswaldo Cruz convida Rocha Lima para trabalhar em Manguinhos. Esse convite o deixa tranqüilo para a sua decisão final; dedicar-se à clínica ou tal qual Oswaldo Cruz, a pesquisa. A flecha certeira da pesquisa assume no seu ideal e a satisfação da escolha aprimora o conceito escolhido.

Ao regressar ao Brasil, Rocha Lima encontra Oswaldo Cruz na Diretoria Geral da Saúde Pública indicado que fora pelo então Presidente da República, Rodrigues Alves e, ainda, acumulando a diretoria do Instituto Soroterápico de Manguinhos.
Por dois anos, Rocha Lima, no cargo de assistente, em Manguinhos, orienta os doutorandos que, destes, alguns mais tarde, seriam expoentes da ciência no Brasil e fora dele, assim nominados: Arthur Moses, Parreiras Horta, Jesuíno Maciel, Marques Lisboa, Carlos Chagas, Henrique Aragão, Borges da Costa, A. MacDowel, Waldemar Schiller, Rodolfo Abreu, Aben Athar, Raul A. Magalhães, Henrique Dodsworth e José Gomes de Faria. Arthur Neiva e Alcides Godoy que traziam experiências do Serviço Sanitário, também ingressaram em Manguinhos denominado, em 1903, de Instituto Experimental de Manguinhos.
Rocha Lima permanece em Manguinhos por seis anos e como trouxera consigo a bagagem de um conhecimento além fronteiras, persegue um status maior para Manguinhos que adquiriu o reconhecimento nacional e internacional. Era uma complexa rede de assuntos que perfilava-se como parasitologia, anatomia, histologia, bacteriologia, onde apareciam uma nova geração de médicos que contextualizariam a investigações científicas no país.

Graças a Rocha Lima, Alcides Godoy pode desenvolver a vacina contra a peste da manqueira quando este isolou colônias de bactérias anaeróbicas. Essa vacina foi testada por Rocha Lima, Chagas e Godoy sendo efetiva no combate da peste.


Lutas e conquistas

rocha lima
Fonte: Arquivo do Instituto Biológico
Sentado em frente - Rocha Lima
Sobre o braço da poltrona - Gustav Giemsa
De costas para a bancada - Stanislas von Prowazek


Em 1906, Rocha Lima vai novamente para a Alemanha e aplica ainda mais seus estudos com o Prof. Duerck. Visita várias instituições e, em estando na Alemanha e o Congresso Internacional de Higiene ocorrendo no ano seguinte, sugere a Oswaldo Cruz a participação de Manguinhos nesse evento. Assim, em 1906, no dia 9 de outubro se expressa em uma carta, Oswaldo Cruz para Rocha Lima: “Quanto à exposição de Higiene, apesar das misérias que me estão fazendo, haveremos de levá-la a efetivo, por isso pode você pedir o espaço e mandar-me dizer qual será ele, e se você puder mande uma planta das salas. Assim que o Ministro autorizar-me mandarei a resposta oficial”.

O Congresso, em 1907 acontecia, e o Brasil estaria lá representado por Oswaldo Cruz e Rocha Lima. Três salas completam o espaço para Manguinhos, assim distribuídas: uma destinada a profilaxia da febre amarela na cidade do Rio de Janeiro, outra às condições sanitárias e demográficas da cidade do Rio de Janeiro e a última ao Instituto de Patologia Experimental de Manguinhos, tudo que foi planejado com o auxílio de Luiz de Morais Júnior, construtor do prédio de Manguinhos. Quando O. Cruz chega a Alemanha, diz de sua primeira impressão: “Nossos lugares são os melhores possíveis e talvez consigamos não fazer má figura”. Pois sim, não fizeram má figura mesmo, entraram para a história das glórias científicas, conquistando a medalha de ouro da imperatriz da Alemanha, que era patrona da exposição e, como conseqüência, o reconhecimento de toda uma gama de cientistas de todo o mundo. Era Manguinhos com o reconhecimento mundial que se expressava por intermédio de Oswaldo Cruz e Rocha Lima. O Prof. Martin Ficker que coordenava a Comissão Organizadora do evento, detêm um pensamento, em 1940, sobre Manguinhos e Rocha Lima – “Quem na Europa conhecia então, no primeiro decênio desse século, os grandes feitos de um Oswaldo Cruz e os trabalhos científicos produzidos por Manguinhos? Para mim foi motivo de constrangimento o nunca ter tido conhecimento desses progressos através da literatura européia e pela primeira vez ser inteirado por Rocha Lima, que continuou a realizar um exuberante trabalho de divulgação da ciência brasileira. A ele se deve o comparecimento do Instituto de Manguinhos ao Congresso Internacional de Higiêne de 1907, em Berlim”.

Até 1908, a escola francesa era dominante na área de pesquisa no Brasil. Mas, após a estada de Manguinhos no Congresso em Berlim, e os reflexos do sucesso da participação desta instituição, a Alemanha via com bons olhos a pesquisa científica realizada em Manguinhos e envia dois grandes professores da Escola de Moléstias Tropicais de Hamburgo para o Rio de Janeiro, Stanislas von Prowazek e Gustav Giemsa que, por seis meses, estariam ministrando cursos para os pesquisadores de Manguinhos. Todo esse processo de divulgação institucional condiciona uma reestruturação da instituição e o Instituto de Manguinhos passa, em 1908, a ser denominado Instituto Oswaldo Cruz. Rocha Lima passa então a orientador dos estudos de microbiologia e anatomia patológica.

Nesse mesmo ano, Rocha Lima inicia seus estudos sobre febre amarela, que já havia sido estudada, a parte clínica, por Miguel Couto e Azevedo Sodré que diagnosticaram a doença por meio do aumento de volume de fígado e baço, da cor amarelada que o doente apresentava e as hemorragias. Os trabalhos de Rocha Lima tiveram como conteúdo as centenas de descrições morfológicas sobre os diversos órgãos. Em 1912, na Alemanha, ele aperfeiçoa seus estudos e os apresenta na Associação Alemã de Anatomia Patológica, porém, o crédito não é dado a ele. Otto Bier, em 1956 diz do acontecido: “era um sul-americano jovem (contava apenas com 32 anos), presumivelmente ainda pouco experiente e que procurava derrubar um dogma, ao criar uma síndrome anatomo-patológica característica de uma doença já tão bem estudada como a febre amarela!”. Rocha Lima descreveu várias lesões em diversos órgãos, principalmente do fígado, considerando típicas de febre amarela. O diagnóstico no momento dizia de uma icterícia, nas hemorragias e na cor amarelada do fígado. Esse paradigma era sustentado por Azevedo Sodré e Miguel Couto. O trabalho de Rocha Lima ficou por longo tempo esquecido. Rocha Lima apresenta seu desapontamento anos depois: “mesmo os maiores mestres, incomparavelmente mais ricos em saber e experiência, podem decepcionar quem a eles recorre, quando o assunto novo ultrapassa os limites do campo de suas habituais atividades”.
Desde o início de seu trabalho, em 1905, uma enorme corrente de elos de desconhecimento de seu trabalho, ganhou espaço. Somente em 1929 quando, no Rio de Janeiro, acontece uma epidemia de febre amarela que a “lesão Rocha Lima” é admitida. Esse trabalho, de grande importância, pois determinava com precisão a ocorrência de surtos epidêmicos, e as medidas de profilaxia eram então acionadas. Mas, como sempre, o pesquisador de casa não faz nunca os milagres, seus próprios colegas assistentes do agora Instituto Oswaldo Cruz, negavam a sua descoberta e depositavam em W. Councilman a descrição das lesões. Rocha Lima, entristece-se pela forma inconseqüente de nominar Councilman o primeiro a descrever as lesões, ainda mais vindo de colegas do Instituto Oswaldo Cruz que ajudou a construir. Tenta convencer seus algozes, dizendo de seu trabalho onde cita os estudos de Councilman, e que também, inova com sua prioridade sobre o tema em discussão. Mas, a verdade não aparece tão depressa como ele esperava e os americanos começam a atribuir a Councilman a descoberta. Silencioso, Rocha Lima deixa o assunto de lado e espera que um dia aconteça a verdade.

Essa verdade, vem com a Comissão Rockefeller no Brasil, sob a direção de F. L. Soper, que aceita definitivamente os trabalhos de Rocha Lima sobre a febre amarela. A partir daí, a “Lesão Rocha Lima” que determina a febre amarela é mundialmente reconhecida e utilizada até os dias de hoje. Com esse reconhecimento, foram introduzidos os procedimentos sistemáticos, sendo, o exame histopatológico do fígado, um diagnóstico efetivo para esse mal. Rocha Lima, como sempre, em suas reflexões posteriores, com sua característica finamente mordaz, assegura, dizendo de seus colegas que o desacreditaram: “Acertei, porém, em subir calmamente a uma altura de tranqüilidade e indiferença que me permite hoje ver a humanidade mover-se e entrechocar-se com a mesma equanimidade e o mesmo alheamento com que observo a movimentação e o entrechoque de microorganismos no campo do microscópio. Tenho apenas cuidado de evitar que me contaminem os dedos. Porque assim quase perdi a vida levando a uma mucosa riquétsias do tifo exantemático que havia alegremente contemplado ao microscópio em preparado a fresco”.


Richettsia prowazekii, um estigma

Em 1909, Rocha Lima aceita o convite do Prof. Duerck para ocupar o cargo de primeiro assistente na cátedra da Universidade de Iena. Rocha Lima aceita o convite e licencia-se do Instituto Oswaldo Cruz, ficando por oito meses no cargo para o qual foi convidado. Após esse período, o Prof. Stanislas von Prowazek, por quem Rocha Lima tinha grande admiração, o convida para ir trabalhar no Instituto de Moléstias Tropicais de Hamburgo. Nesse Instituto, Rocha Lima fica de 1910 até 1928, tendo em 1914, recebido a seção de Anatomia Patológica e Vírus Invisíveis que fora criada para ele. Seu título de Médico é reconhecido e torna-se professor na Universidade de Hamburgo. Nesse mesmo ano ele é indicado pelo governo alemão para estudar o typhus epidêmico em Constantinopla, na Turquia, no Hospital Militar de Haidar Pascha e nesse momento a 1ª Grande Guerra Mundial acontece, impedindo-o de retornar ao Brasil. Assim, Rocha Lima trabalha em um hospital militar em Hamburgo, realizando diagnósticos bacteriológicos.
Em dezembro de 1914 Rocha Lima dirige-se para Cottbus e trabalha incessantemente examinando conteúdo intestinal de piolhos colhidos em soldados doentes ou mesmo mortos. Stanislas von Prowazek chega 15 dias mais tarde e juntos observam os mesmos corpúsculos que Prowazek havia observado também em material de piolho na Sérvia, em 1913. Com o material resolveram ampliar as pesquisas, dividindo as tarefas. Coube a Prowazek estudar os corpúsculos em preparações a fresco, não tardando a contaminar-se e, em 17 de fevereiro de 1915, Prowazek falecia como tantos outros que tentavam estudar a doença: Ricketts, Jochmann, Lüthje, Cornet, Römer, Pappenheim, Schüssler, Lemos Monteiro e muitos outros. Após o falecimento de Prowazek, Rocha Lima trabalha arduamente para elucidar essa doença, sendo também infectado, mas consegue se restabelecer, e volta para Hamburgo.

Em Hamburgo trabalha com esse assunto fazendo inúmeras análises de pessoas pobres que eram levadas pelos policiais para os hospitais. Com muito afinco consegue 3 piolhos positivos para as formas encontradas em Cottbus e, em colaboração com Hilde Sikora, que se preocupava com a morfologia e biologia do piolho, apresenta na Sociedade Alemã de Patologia, em Berlim, seu trabalho. Em seu relato diz que 18 de 19 piolhos infectados provenientes de Cottbus, e que nenhuma vez sequer ao examinar de mais de 100 piolhos normais, encontravam-se rickettsias formando massas intracitoplásmicas, semelhantes às inclusões dos clamidozoários. Sikora, com sua colaboração eficiente, cria piolhos sãos para os estudos de Rocha Lima. Nos Congressos de Berlim e de Varsóvia Rocha Lima já comunicaria os resultados de mais de 30 experimentos realizados em Wloclawek com as gaiolas de Sikora.


“Bateu-se o martelo”

Em 15 de fevereiro 1916, Rocha Lima faz uma descoberta importantíssima, descobre o causador do tifo, um agente que denomina rickettsias, que corava em vermelho pálido utilizando o método de Gustav Giemsa. Verifica nos piolhos colhidos dos doentes essas “rickettsias” que em penetrando nas células epiteliais do intestino, multiplicavam-se provocando lesões que estabeleciam a doença. Rocha Lima fez de seu conteúdo científico a prova de sua capacidade, esclarecendo a doença, sua etiologia, epidemiologia e profilaxia e, todo esse estudo, propiciou a viabilização de soros e vacinas. Seus estudos foram baseados em trabalhos de pesquisadores da França e dos Estados Unidos.

Assim, em 1 e 2 de maio de 1916, participando do Congresso Alemão de Medicina Interna, apresenta os preparados em lâminas demonstrando os microrganismos no interior da células epiteliais. Caracteriza, o provável agente causador do tifo exantemático, propondo o nome de Richettsia Prowazeki, sendo Richettsia em homenagem a Howard Taylor Ricketts, americano que havia falecido no México, em 1910 e Stanislaus von Prowazeki, autriaco que morrera em Cottbus, em 1915, ambos pesquisadores contaminados com o typho. Rocha Lima, ao dar o nome de rickettsia ao agente intracelular chama a atenção para o fato desse organismo não se comportar como uma bactéria mas, eram semelhantes a esse agente.

W. His, organiza o Congresso de Varsóvia para que se debatesse a etiologia do tifo exantemático e, para isso, convida Rocha Lima e H. Töpfer, médico militar que trabalhara em Wloclawek, Polônia, também com o typhus. As pesquisas de Töpfer não eram totalmente independentes dos trabalhos de Rocha Lima que havia estado nesse mesmo local para trabalhar com o mesmo assunto. Havia uma certa discussão sobre a prioridade da descoberta de Rocha Lima em relação a Töpfer. Mas, Rocha Lima já havia apresentado seu trabalho original no Congresso Alemão de Medicina Interna e, portanto, tinha a prioridade de sua descoberta. No programa impresso do Congresso, Rocha Lima seria o primeiro a apresentar seu trabalho pois, havia sido ele o primeiro a identificar o agente do typhus mas, inverteram-se as apresentações e Töpfer apresenta seu trabalho primeiramente. Quando Rocha Lima vai apresentar sua descoberta, corta-se sua palavra e é permitido a ele que apresentasse somente um pequeno resumo, mais para a imprensa leiga. E, ainda, Rocha Lima é proibido de apresentar projeções de sua pesquisa. Foi assim que His deu um grande tropeço na história da descoberta da Richettsia prowazekii, prejudicando Rocha Lima.

Em sinal de protesto, Rocha Lima envia uma carta a His, em 22 de julho de 1916, retirando seu trabalho. Dizendo: “A ordem das comunicações foi alterada arbitrariamente, de tal maneira que se concedeu primeiramente a palavra ao Dr. Töpfer, cujas pesquisas foram posteriores e não totalmente independentes das minhas e que, de acordo com o programa impresso, deveria falar depois de mim. A prioridade de minhas descobertas mais recentes, realizadas não há 1 ano, como as outras, mas apenas 1-2 meses antes das de Töpfer, seria posta em dúvida caso tivesse eu esperado pelo Congresso de Varsóvia para a sua publicação. 2- O resumo extremamente curto que me foi solicitado para a imprensa ficou, por assim dizer, anulado, transformando-se em apêndice inexpressivo, e sem importância, do extenso Referate apresentado pelo Dr. Töpfer. 3- Não me foi permitido, por exceção, projetar fotogramas. Um orador que me sucedeu pode, entretanto, projetar os seus, de sorte que não é possível invocar a falta de tempo como base para a proibição de minha demonstração”. Esse pronunciamento por escrito, fez recuar os organizadores do evento e, por fim, o trabalho de Rocha Lima foi publicado por completo, nos Anais do Congresso, antes da comunicação de Töpter.

His, respondendo a carta de Rocha Lima, em 10 de agosto de 1916, em Biala, Polônia, apresenta o seguinte texto “ Finalmente posso escrever-lhe e desejo, antes de tudo, exprimir a minha satisfação pelo fato de haver o Sr. superado o seu ressentimento e decidido incluir nos Anais a sua comunicação. O Sr. sabe o valor que atribuo a isto. Em relação à questão da prioridade, isto é, a independência dos trabalhos de Töpfer, não me posso manifestar por falta de base; fui informado há pouco tempo de que o Sr. é de opinião que Töpfer haja tomado conhecimento de seus achados antes da publicação dos mesmos. Por ocasião do Congresso eu ignorava completamente esta suspeita sua. Sabia apenas, através de sua publicação, que o senhor desde muito tempo investigava esses corpúsculos e, se coloquei a sua conferência em segundo lugar, foi como quando se serve um vinho velho após o novo”. Otto G. Bier escreve comentando esse fato: A regra dos vinhos evocada por His é oposta àquela que se encontra no Evangelho: “Todo o homem põe primeiro o bom vinho: e quando os convidados têm bebido bem, então lhes apresenta o inferior”- Evangelho segundo São João, cap.2. A não ser, que His, como Jesus nas bodas de Caná, pretendesse transformar água em vinho da melhor qualidade, ou seja, o trabalho de Töpfer em contribuição mais importante que a de Rocha Lima. Sobre a carta de His, Rocha Lima comenta ironicamente - “Não imaginei que a regra do oferecimento dos vinhos fosse aplicável ao caso”.


O espaço dividido

O cientista francês, Charles Nicolle, estudara essa doença, entre 1909 e 1911, quando determinou que o tifo exantemático era transmitido pelo piolho Pediculus humanus, mas não identifica o agente causador da doença. H. T. Ricketts e Wilder, em 1910, pesquisadores americanos, encontraram corpúsculos que chamavam de micróbios do tifo, em esfregaços de sangue dos doentes, mas, também, encontraram os chamados micróbios do tifo, em material isento dessa doença. O crédito da descoberta começou a ser dado para Ricketts. Rocha Lima em trabalho publicado em 1951 na Revista Brasileira de Medicina, diz em certo momento “Paralelamente se vem cultivando e difundindo a crua e absoluta inverdade de serem os trabalhos posteriormente publicados sobre o assunto apenas repetições e confirmações dessa descoberta em prosseguimento de caminhos apontados e traçados por esses cientístas norte-americanos, quando na realidade outros foram os caminhos, outras as observações e outras experiências que, em 1915, fundamentaram os nossos conhecimentos actuais sobre esse agente etiológico, quando o achado de Ricketts não havia sido nem podia ter sido tomado em consideração alguma”. Mais a frente demostra sua revolta, pela não aceitação de seu trabalho sendo atribuído a Ricketts a descoberta, “Considerando-se os corpúsculos de Ricketts, mas também sem características morfológicas, que os permita reconhecer e diferenciar de granulações do tecido, foram também encontrados em leucócitos e mencionados em 1913 por Prowazek, que também não considerou esse achado como a solução do problema etiológico do tifo, que continuou a investigar por outro caminho até a sua morte em 1915”.
Charle Nicolle assinalara que o agente etiológico era um vírus filtrável e ultravisível diferentemente dos pesquisadores Rickets e Wilder que comunicaram o encontro de cocobacilois nos piolhos infectados. Nicolle, Blanc & Conseil verificaram que em 5% dos piolhos testemunhos livres do tifo, encontraram essas formas sem determinação. Isso acontecia até o início de 1915.


A verdade está presente

Em 1918, Brumpt em seu livro “Précis de Parasitologie” afirma: “Quanto ao agente causador Rickettsia prowazeki, durante muito tempo considerado como um germe invisível e filtrável, devemos a demonstração de seu papel etiológico, se não a sua descoberta, ao médico brasileiro Da Rocha Lima”.
Também Gotschlich em 1917 escreve, após estudar porminorizadamente os trabalhos de Rocha Lima “Em resumo, podemos precisar o estado de nossos conhecimentos sobre o agente causador do tifo exantemático dizendo que a sua morfologia no organismo do homem doente ou do animal infectado não é ainda conhecida com segurança, sendo-o, porém, no organismo do piolho do corpo que serve de vetor, sob a forma da bem caracterizada Rickettsia prowazekii”.
R. Weigl, estudioso da etiologia do typhos assegura: “As observações e experiências fundamentais de Rocha Lima de que a R. Prowazekii era um parasito intracelular estrito. Através desta descoberta fundamental, Rocha Lima trouxe novo estímulo e animo ao estudo da etiologia do tifo exantemático. Desta maneira tornou-se Rocha Lima digno de maior mérito em relação ao estudo do tifo exantemático”.

No Tratado de W. Kolle, R. Kraus e P. Uhlenhuth, na sua terceira edição, R. Otto e H. Munter - “aduzem os argumentos que levam a aceitar tal etiologia, salientando a contribuição fundamental de Rocha Lima e os achados confirmatórios e complementares de Weigl, Wolbach et al., Mooser e outros”.

No Tratado de Bacteriologia e Imunidade de Topley e Wilson, em sua quarta edição diz: “Embora o typhus epidêmico fosse conhecido há séculos e tivesse desempenhado não pequeno papel no curso da história, não foi senão em 1909 que Nicolle e seus colegas, em 1911, descobriram que a infecção se transmitia pelo piolho do corpo e, em 1916, que Rocha Lima demonstrou o agente etiológico da doença, Rickettsia prowazekii. O agente causador do tifo exantemático é a Rickettsia prowazeki, primeiramente descrita, em 1916, por Rocha Lima e, mais tarde, no mesmo ano, por Töpfer”.


Entre uma pesquisa e outra

O abnegado cientista, Rocha Lima, em 1912, sempre atendo para novas pesquisas, descobre a origem fúngica da histoplasmose. Em 1906, Samuel Taylor Darling descobriu o Histoplasma capsulatum no baço e no fígado de pacientes que haviam morrido e identificou esse agente como sendo um protozoário. Rocha Lima estudando esse agente descobre que era um fungo. No presente momento a histoplamose faz parte das chamadas doenças oportunistas que estão associadas ao HIV por estar quase sempre presente nessa retrovirose. Com essa descoberta Rocha Lima deixou a possibilidade de um tratamento adequado com drogas antifúngicas.

Em 1915 apareceria uma doença que Rocha Lima começa a dedica-se, a Rickettsia quintana. Diferentemente da Richettsia prowazekii ela era extracelular e se colocava à superfície do epitélio gastrintestinal. Foi descrita mais tarde, em 1917, por Shminke. Essa nova doença, ao contrário do que acontecia com o typhus epidêmico, a infecção era obtida com regularidade nos piolhos que se alimentavam de pacientes com febre ou não ou até em pacientes sãos. Esse tema, por já ter a identificação do agente etiológico, Rocha Lima chega a seguinte hipótese: a Rickettsia quintana, de distribuição geográfica extensa, poderia persistir durante extenso período no sangue de portadores sãos que, por sua vez, infectariam piolhos nos quais seriam encontradas as rickettsias consideradas como normais no ectoparasita. Atualmente a Rickettsia quintana é denominada Bartonella quintana que, entre outras infecções, é chamada angiomatose vascular e possui tratamento específico.


Reconhecimento que lhe deram alegrias


Fonte: BERNHARD-NOCHT-INSTITUTE for tropical Medicine
Heads of Departments around 1920. last row left to right: Henrique da Rocha-Lima (pathology & anatomy), Peter Mühlens (epidemic tropical infectious diseases), Erich Martini (medical entomology), Eduard Reichenow (protozoology), Martin Mayer (bakteriology). First row from left to right: Friedrich Fülleborn (tropical medicine & tropical hygiene), Bernhard Nocht (Director und chief medical officer), Gustav Giemsa (chemistry)


Rocha Lima, reconhecido mundialmente, apesar de muitas celeumas, sobre a Rickettsia prowazekii, recebe a condecoração da Cruz de Ferro concedida pelo Imperador da Alemanha, Guilherme II, por iminente perigo de vida em prol da Ciência. Recebeu, também, as Insígnias de Honra da Cruz Vermelha Alemã. A Medalha de Benemerência do Papa Pio XI e, talvez, a que mais o sensibilizou, foi a Medalha Bernhard Nocht, em 1928, outorgada pelo Tropeninstitut de Hamburgo, prêmio internacional, que mais dois brasileiros, Pirajá da Silva e Mário Pinotti iriam receber em 1954, sendo a mais alta distinção conferida por essa instituição reconhecida em todo o mundo. Ainda hoje, ao abrir-se a página do Tropeninstitut de Hamburgo, na internet, vê-se a foto de Rocha Lima por seu trabalho em prol da ciência.


A maior das injustiças

Charles Jules Henri Nicolle, em 1928, recebe o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia pelos trabalhos realizados sobre o tifo exantemático e, Rocha Lima, nem é citado, ignorando-se tudo que ele havia feito como verdadeiramente pai da Rickettsia prowazeki nome dado por ele, homenageando Rickets e Prowazeki. Como sempre os mais humildes deixam seu carisma para outros. Cita-se o início do trabalho de Rocha Lima, publicado em 1951, quando diz de todo o conteúdo de discussões que aconteceram sobre o tifo exantemático. “Mesmo na literatura científica, mesmo nessa atmosfera em que se pressupõe um sacerdócio voltado exclusivamente à procura da verdade nem sempre a verdade histórica é encontrada pura e livre da máscara convencional falseadora imposta pela influência das preponderâncias pessoais, regionais ou internacionais”.
Rocha Lima deveria dividir o prêmio já que Nicolle identificou o agente transmissor do Tiphus e Rocha Lima identificou o agente causador da doença, dando, ainda, o nome Rickettsia prowazekii, ao agente transmissor, nome utilizado pelo próprio Nicolle. “Charles Nicolle and H. Da Rocha Lima–the first for the discovery of the transmitting agent; the second, for the discovery of the etiologic agent”.

Assim, como dividiram o Prêmio Nobel, em 1943, Carl Peter Dam pelo descobrimento da vitamina K e Edward A. Doisy por descobrir a natureza química dessa vitamina. Também, em 1945, Sir Alexander Fleming recebeu o Prêmio Nobel pela descoberta da penicilina e Ernst Chain e Sir Howard Florey pelo seu efeito curativo para várias doenças infecciosas. Então, Nicolle e Rocha Lima deveriam ter dividido o “Prêmio Nobel, por justiça.

A não premiação de Rocha Lima foi discutida por vários cientistas na época, que provavam em várias publicações, o importante trabalho de Rocha Lima. A não premiação de Rocha Lima foi um fiasco histórico.


O óbvio não aceito

Mas, mais uma vez, aqueles que não aceitam o óbvio se apresentam de maneira indevida. Em 1939 em Simpósio promovido pela Escola de Medicina da Universidade de Harvard, em junho, sob a presidência de Hans Zinsser autoridade no assunto das rickettsioses diz da descoberta do agente causador do typhus: “Delineamos acima o trabalho pioneiro realizado sobre as rickttsioses por um francês e por um americano. As honras máximas são devidas ao americano porque, com brilhantismo e precisão, evidenciou fatos e indicou, pelos métodos que utilizou, a maioria das linhas principais de desenvolvimento adotadas posteriormente no estudo das rickettsioses. Sua morte no México, causada pelo typhos em 1910, representou grande perda para o mundo, sob dois aspectos: a perda dos seus serviços e a perda de um magnífico exemplo de líder e de cientista. O tributo prestado por Rocha Lima (1916) ao criar o gênero Rickettsia foi uma feliz iniciativa”.
Rocha Lima faz outro comentário, também em publicação do ano de 1951: “Mesmo nas maiores conquistas da humanidade os seus realizadores por elas imortalizados tiveram precursores, que embora muitas vezes menores em méritos, permaneceram ignorados ou deixaram na penumbra. Na história do tifo exantemático é, porém, inversamente a um apontado precursor que a literatura hoje predominantemente confere todo o mérito da conquista. Assim, não a Colombo nem a Cabral, mas somente aos navegantes que antes deles avistaram as costas da América e do Brasil deveria ser atribuída a glória da descoberta daquele continente e deste país. Dentro desse pensamento, também a descoberta de um crime deveria ser atribuída a quem primeiro aponta um possível criminoso e não, como costuma ser, a quem apresenta as provas que o identifiquem como tal”.


Controvérsias

Em 1938, Rocha Lima recebe o título de Cavalheiro da Ordem da Águia Alemã das mãos do próprio Hitler, no momento do regime nazista. Essa condecoração foi criada para agraciar cidadãos de outras nacionalidades, que tivessem executado pesquisas relevantes. Discute-se a posição política de Rocha Lima, já que recebeu esse título Mas, isso não se pode determinar. Julga-se que Rocha Lima, já cansado de ser alvo do não reconhecimento de suas pesquisas, haja vista a plêiade de cientistas franceses e americanos que dominavam a ciência, apesar de nessa época a Alemanha ser o berço do conhecimento científico, deixou para traz as discussões de ser ou não ser a favor do regime nazista e recebeu por todo seu trabalho de anos a finco, o que julgou que merecia. Não por essa ou aquela situação política, mas como um sinal de merecimento pelo trabalho que incessantemente dedicou desde 1910 até 1928.


De volta ao seu berço

Em 1928 regressa ao Brasil para colaborar com Alfons Jakob da Universidade de Hamburgo no curso de histopatologia e anatomia macro e microscópica do sistema nervoso, em Manguinhos.

Chegando ao Brasil, em 1928, é convidado, pelo governo do Estado de São Paulo para o cargo de Diretor da Divisão Animal do Instituto Biológico. O Instituto Biológico fora criado em 26 de dezembro de 1927.

Começa então sua lida para fazer do Instituto Biológico tal qual fizera nos anos 1903 a 1906 com o Instituto Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro.

Inicia-se assim a era Rocha Lima no Instituto Biológico.


Referências

Coleção Rocha Lima – Arquivo Instituto Biológico
Falcão, E. de C. Estudos sobre o Tifo Exantemático, 1966. 596p.
Ribeiro, M.A.R. História, Ciência e Tecnologia – 70 anos do Instituto Biológico de São Paulo na defesa da agricultura, 1927-1997. 1997, 284p.


 
     

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