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Revisada em 23 outubro 2000

EFEITO DO TRATAMENTO DE SEMENTES DE FEIJÃO (Phaseolus vulgaris) COM FUNGICIDAS NO CONTROLE DE Macrophomina phaseolina E NA EMERGÊNCIA DE PLÂNTULAS


 
M.H. Vechiato, C.C. Lasca, E.Y. Kohara, S.Chiba
Centro de Sanidade Vegetal, Instituto Biológico, Av. Cons. Rodrigues Alves, 1252, CEP 04014-002, São Paulo, SP, Brasil.

Resumo

Amostras de sementes de feijão da cultivar Carioca, com incidência de 2,5 e 10% de Macrophomina phaseolina, foram tratadas com fungicidas objetivando verificar o efeito do tratamento sobre o patógeno e a emergência. Foram realizados experimentos de laboratório, casa de vegetação e campo, em duas épocas de plantio. De acordo com os resultados dos experimentos de laboratório os fungicidas carbendazin + thiram, iprodione + thiram, iprodione + carbendazin, triflumizole + tiofanato metílico, benomyl + thiram, carbendazin + mancozeb, carboxin + thiram, benomyl, thiram e thiabendazole controlaram o patógeno nas sementes. Não houve efeito do tratamento das sementes sobre a emergência em experimentos de casa de vegetação e campo. Para avaliar o comportamento de M. phaseolina presente na semente e no solo, em relação à emergência, foi instalado experimento em casa de vegetação em solo com e sem inóculo e sementes com 10% de incidência desse fungo, com e sem tratamento fungicida. A emergência não foi afetada pelo fungo quando presente apenas nas sementes neste nível, mas foi reduzida significativamente pela presença concomitante do fungo nas sementes e no solo.

Palavras-chave: Sementes, feijão, fungicidas, Macrophomina phaseolina.


Abstract

Seed treatment of bean (Phaseolus vulgaris) against Macrophomina phaseolina and its effect on emergence.

Bean seed samples from Carioca cultivar with 2.5 and 10.0% of Macrophomina phaseolina incidence were treated with fungicides in order to evaluate the effect of treatement on bean-seed emergence. Experiments with treated seeds were carried out under laboratory, greenhouse and field conditions. Results of laboratory tests showed that the fungicides carbendazin + thiram, iprodione + thiram, iprodione + carbendazin, triflumizole + tiofanato metílico, benomyl + thiram, carbendazin + mancozeb, carboxin + thiram, benomyl, thiram and thiabendazole controlled M. phaseolina. Under greenhouse and field conditions, the treatement was not effective for increasing emergence. To evaluate the behavior of M. phaseolina present in seeds and soil, in relation to emergence, an experiment was carried out in greenhouse conditions, using treated and untreated seeds with 10.0% of the fungus incidence and soil with and without inoculum. The results showed that emergence was not affected when the pathogen was present only in seeds, but was significantly reduced when the pathogen was present in soil and seeds.

Key words: Seeds, Phaseolus vulgaris, fungicides, Macrophomina phaseolina.


Introdução

O fungo Macrophomina phaseolina (Tasse) Goid, agente causal da podridão cinzenta do caule, é considerado, pelos danos causados, um dos principais patógenos de sementes de feijão (Lasca, 1978; Vieira, 1983; Menezes, 1987). É um fungo polífago, com grande variabilidade patogênica e alta capacidade de sobrevivência em condições adversas. A fonte de inóculo primária é constituida pela semente infectada, restos de cultura colonizada pelo micélio do fungo e escleródios (Dhingra & Sinclair, 1978).

No nordeste brasileiro, onde as plantas estão sujeitas a altas temperaturas e descréscimo da umidade do solo, condições que favorecem o desenvolvimento do patógeno, esta doença é um dos fatores limitantes ao cultivo de feijão (Figueiredo et al., 1969; Dhingra & Sinclair, 1974).

Os prejuízos à cultura do feijoeiro são determinados pela diminuição do "stand", do desempenho produtivo das plantas e da baixa qualidade da semente produzida quanto ao vigor e sanidade (Cardoso, 1994).

Dhingra & Sinclair (1978) preconizaram como medida de controle da podridão cinzenta do caule, o emprego de semente de boa qualidade sanitária, tratamento de sementes com fungicidas e adoção de práticas culturais, visando reduzir o potencial de inóculo do patógeno.

Apesar do patógeno estar disseminado em regiões produtoras de feijão, a utilização constante de sementes portadoras do patógeno pode aumentar o inóculo em áreas onde a doença já esteja estabelecida, inviabilizando a produção das lavouras de feijoeiro.

Diante disso, este trabalho teve como objetivo obter informações sobre o efeito do tratamento de sementes de feijão com fungicidas, visando o controle de M. phaseolina e de outros fungos, bem como verificar o efeito deste patógeno sobre a emergência, quando presente nas sementes e/ou no solo.


Material e Métodos

Duas amostras de sementes de feijão da cultivar Carioca apresentando 2,5 (A1) e 10% (A2) de incidência de Macrophomina phaseolina foram tratadas com os fungicidas relacionados na Tabela 1. Para avaliação do efeito do tratamento das sementes, foram instalados experimentos de laboratório, casa de vegetação e campo.

Em laboratório, após o tratamento, as sementes foram analisadas para sanidade pelo método do papel de filtro (Ista, 1966). Utilizaram-se duzentas sementes de cada tratamento em repetições de 50.

Em casa de vegetação, duzentas sementes de cada tratamento em repetições de 50, das duas amostras, foram semeadas em caixas contendo terra autoclavada, seguindo-se o delineamento inteiramente casualizado. Sementes sem fungicidas constituíram o tratamento testemunha. Foram feitas avaliações de emergência e de sintomas de plântulas aos 7 e 15 dias após semeadura. Foi também instalado experimento para avaliar o comportamento de M. phaseolina nas sementes e/ou no solo, com a amostra A2, seguindo o mesmo procedimento anterior, com os seguintes tratamentos:

1-solo com inóculo/semente não tratada
2-solo com inóculo/semente tratada
3-solo sem inóculo/semente tratada
4-solo sem inóculo/semente não tratada

O fungicida utilizado no tratamento das sementes foi iprodione + carbendazin, na dose de 150 mL/100kg semente. O solo foi infestado artificialmente com inóculo, incorporando-se em cada caixa com terra autoclavada, 200 g de sementes de feijão previamente autoclavadas, usadas como substrato e infestadas com M. phaseolina.

Em campo, foram instalados experimentos em Paulínia, SP, utilizando-se amostras de sementes com 2,5 e 10% de incidência do patógeno, em julho e novembro, respectivamente. No plantio de julho, foi instalado um experimento com 8 tratamentos e 4 repetições, em novembro utilizaram-se 9 tratamentos e 4 repetições. Em ambos os casos, cada parcela foi constituída de 4 linhas de 4 metros de comprimento espaçadas entre si de 0,50 m e o delineamento estatístico seguido foi o de blocos ao acaso. As avaliações da emergência foram feitas aos 15 e 21 dias após a semeadura, nas 2 linhas centrais, contando-se o número de plântulas que emergiram.

Os dados de emergência em casa de vegetação e campo, foram analisados estatísticamente aplicando-se teste de Tukey a 5% de probabilidade.


Resultados e Discussão

De acordo com os resultados das análises de sanidade das sementes realizadas em laboratório (Tabela 2), todos os fungicidas controlaram M. phaseolina, independentemente do nível de incidência do patógeno. Na amostra A1 onde a incidência era de 2,5%, todos os fungicidas, exceto carbendazin + thiram e thiram, reduziram a incidência do patógeno a zero. Na amostra A2 que apresentava 10% de incidência, somente os fungicidas carbendazin + thiram e benomyl+ thiram erradicaram o patógeno.

De maneira geral, todos os fungicidas controlaram os fungos nas sementes, porém, as maiores reduções foram obtidas pelas misturas carbendazin + thiram, iprodione + carbendazin, iprodione + thiram e benomyl (A1), benomyl + thiram, carbendazin + thiram, triflumizole + tiofanato metílico e benomyl (A2).

A eficiência do benomyl+thiram e carboxin+thiram no tratamento de sementes de feijão para controle de M. phaseolina, Rhizoctonia solani e Fusarium oxysporum fsp phaseoli é relatada por Costa (1989), que demonstrou que o tratamento de sementes infectadas pode ser uma medida viável de redução de inóculo, sendo que o tratamento de sementes com a mistura benomyl + thiram destacou-se por erradicar os patógenos das sementes.

Em pesquisas realizadas por Corrêa et al. (1993), com o objetivo de verificar o efeito de fungicidas e de antagonistas sobre M. phaseolina e Sclerotium rolfsii em sementes, esses autores relataram que os fungicidas benomyl + thiram foram efetivos na inibição micelial desse fungos.

Em casa de vegetação (Tabelas 3 e 4) não foram constatadas diferenças significativas da emergência entre os tratamentos nos dois níveis de incidência do patógeno, embora os valores numéricos tenham sido mais elevados na maioria dos tratamentos com fungicidas.

Em relação ao experimento onde se utilizaram sementes com incidência de 10% do M. phaseolina (Tabela 5), em solo com e sem inóculo desse patógeno, embora o tratamento tenha sido eficiente no controle do fungo nas sementes, reduzindo a incidência do patógeno à 0,5%, não foram constatadas diferenças significativas da emergência entre as sementes tratadas e não tratadas, em solo sem inóculo; constatou-se, porém, que o índice de emergência em solo com inóculo e semente não tratada foi significativamente inferior aos obtidos em solo não inoculado. No tratamento em que o inóculo esteve presente apenas no solo e as sementes foram tratadas, a emergência foi ligeiramente afetada, ficando o mesmo em posição intermediária entre os tratamentos de solo sem inóculo e o do solo com inóculo e sementes não tratadas.

Estes resultados demonstram que mesmo a incidência de 10% do patógeno nas sementes teve pouco efeito sobre a emergência, mas esta foi afetada significativamente quando houve a somatória do inóculo da semente mais o inóculo do solo.

A presença de M. phaseolina no solo reduzindo significativamente a emergência de plântulas de soja foi constada por Meyer et al. (1974), em canteiros com solos infestados artificialmente com micélio e esclerócios deste fungo.

Em campo, como em casa de vegetação, embora se tenham obtidos valores de emergência numericamente superiores ao da testemunha na amostra A1, e na maioria dos tratamentos na amostra A2, essas diferenças não foram significativas.

A não constatação de um efeito significativo do tratamento das sementes com fungicidas sobre a emergência, tanto em casa de vegetação como em campo, nos dois níveis de incidência estudados e nas duas épocas de plantio, pode ter ocorrido por fatores tais como falta de condições climáticas para a expressão da doença, tipo de solo, severidade da infecção na semente, resistência do cultivar (Coelho Netto & Dhingra, 1996) entre outros. Os fatores climáticos e o tipo de solo têm grande influência no desenvovimento de M. phaseolina, visto que a doença é dependente da interação existente entre o estresse hídrico, temperatura alta e características do solo (Edmunds,1964). Outro fator que deve ser considerado é o nível de infecção de sementes, que neste caso pode estar abaixo do necessário para causar danos significativos à emergência.

Com relação à severidade da infecção nas sementes, Abaw & Corrales (1990), em estudos sobre transmissão do patógeno e efeito de produtos fungicidas em sementes de feijão, citam que sementes severamente infectadas por M. phaseolina afetam a emergência e que o tratamento de sementes com benomyl e carboxin foi efetivo no controle do patógeno, em condições de casa de vegetação em solo infestado artificialmente.

A redução significativa da emergência constatada em casa de vegetação, em solo com inóculo, vem demonstrar a importância da presença do patógeno no solo utilizado para o plantio de feijão. Este fato evidencia que o tratamento de sementes com fungicidas visando reduzir ou eliminar o inóculo em sementes é muito importante, pois evita infestação do solo, além de proteger a emergência de sementes contra fungos de solo.


Referências Bibliográficas

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Recebido para publicação em 19/8/99