DOI: 10.31368/1809-3353a00012020
ANÁLISE

INSTITUTO BIOLÓGICO - UMA INSTITUIÇÃO QUE BUSCOU PROCEDIMENTOS QUE VIABILIZARAM A SUA CRIAÇÃO E SUA EFETIVA ESTADA NO CONTEXTO ATUAL DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO - I


M.M. Rebouças*, S. Bacilieri*, A. Batista Filho**, E.C. Novaes*, E.C. Rosa*

*Instituto Biológico, Centro de Comunicação e Transferência do Conhecimento, Núcleo de Museu do Instituto Biológico, Av. Cons. Rodrigues Alves, 1252. CEP. 04014-002, São Paulo, SP, Brasil. **Diretoria Geral.
E-mail: *reboucas@biologico.sp.gov.br; *sbacilieri@biologico.sp.gov.br; **batistaf@biologico.sp.gov.br; *negócios@biologico.sp.gov.br; *editor@biologico.sp.gov.br


RESUMO

Elaborou-se, no presente trabalho, uma série de temas contemplando a história do Instituto Biológico desde a sua criação, em 26 de dezembro de 1927, até os dias de hoje. A perspicácia de vários atores durante setenta e oito anos de vivência do IB estabeleceu a dinâmica de sua atuação na área de ciência e tecnologia. Provocou o avanço científico na atualidade, quando buscou novas tecnologias em sanidade animal, vegetal e no complexo do meio ambiente.

PALAVRAS-CHAVE: Instituto Biológico, história, ciência, conhecimento científico, tecnologia, divulgação do conhecimento.


ABSTRACT

THE INSTITUTO BIOLÓGICO – AN INSTITUTION THAT SOUGHT PROCEDURES THAT ALLOWED FOR ITS CREATION AND ITS EFFECTIVE PERMANENCE IN THE CURRENT CONTEXT OF SCIENTIFIC KNOWLEDGE – I. The present article outlines a series of themes concerning the history of the Instituto Biológico since its creation, on 26 December 1927, until today. Theinsigth at various key figures during the Instituto Biológico.

KEY WORDS: Instituto Biológico, history, science, scientific of information, technology, divulgation of information.


O começo

Em maio de 1924, apareceu uma terrível praga nos cafezais paulistas, a chamada broca, Hypothenemus hampei, (Ferrari, 1867) (Coleoptera, Curculionidae, Scolytinae) (Fig. 1), que perfurava as cerejas e desvalorizava o produto. O então Secretário da Agricultura, Gabriel Ribeiro dos Santos, constituiu uma Comissão para o estudo da praga cafeeira para averiguar os estragos e identificar o parasita. Assim, Arthur Neiva, Ângelo da Costa Lima e Edmundo Navarro que, em excelente relatório, apresentaram várias propostas de combate dessa praga. Para a execução dos serviços foi então criada a "Commissão de Estudo e Debellação da Praga Cafeeira" sendo nomeados para compô-la Arthur Neiva (Fig. 2), Adalberto Queiros Teles e Edmundo Navarro, que contavam com dois laboratórios: química e entomologia em um prédio na Praça da República. Foram tomadas medidas contra a broca, com a parceria fitossanitária, a fim de realizar novas investigações e novos meios de combate à praga.


Fig. 1 -A broca do café e grãos parasitados.

Fig. 2 - Arthur Neiva.

Com o propósito de divulgar o amplo trabalho executado pela Comissão junto à população rural, procurou-se atingir mais de 1.300 fazendas com um total de 50 milhões de cafeeiros. Foram montadas e colocadas para funcionar 5.000 câmaras de expurgo de sacarias, fornecendo portanto, excelente suporte para a concretização do programa proposto. Com o propósito de divulgar o amplo trabalho executado pela Comissão junto à população rural, procurou-se atingir mais de 1.300 fazendas com um total de 50.000.000 de cafeeiros, sendo montadas e colocadas para funcionar 5.000 câmaras de expurgo de sacarias, dando portanto, excelente suporte para a concretização do programa proposto. Na seção de Entomologia, os entomologistas José Pinto da Fonseca (1896-1982), Mário Autuori (1906-1982) e Alberto Federman (Fig. 3), que nasceu em Lerna, na província de Alexandria, Piemonte, Itália (veio para o Brasil em 1914) e como fotógrafo amador, fotografava e revelava as fotos dos trabalhos que a equipe de pesquisadores realizada. A equipe formada pelos pesquisadores e Federman trabalhou incessantemente para o atendimento do que era proposto. Os resultados obtidos foram assim definidos por K. Escherich "Não conheço outro exemplo de, em tão curto prazo, se haver realizado tanto trabalho científico e prático".


Fig. 3 - Alberto Federman. (em pé, a esquerda).

Arthur Neiva encerra os trabalhos da Comissão apresentando amplo relatório das atividades desempenhadas pelo órgão que brilhantemente chefiou. Os resultados dessa grande mobilização científica e técnica não tardaram a aparecer.

O catastrófico aparecimento da broca, que pegou desprevenida a administração pública, e seu rápido controle mediante iniciativas fundadas na pesquisa científica mostraram ao governo paulista a impossibilidade de manter a riqueza agrícola devidamente protegida sem uma organização fitossanitária permanente, lastreada em ativo trabalho de pesquisa e com diferenciação técnica adequada às muitas funções que a defesa da agricultura abrange.


A criação do Instituto Biológico

Arthur Neiva, com esse conteúdo de ações, demonstrou junto à Assembléia Legislativa, a importância da criação de um órgão que beneficiasse os agricultores. Em 20 de dezembro de 1926 o então Presidente Carlos de Campos enviava à Câmara dos Deputados o projeto da fundação de um Instituto de Biologia e Defesa Agrícola. Apesar de aprovado em 27 do mesmo mês, o projeto não se converteu em lei. Posteriormente, no governo Júlio Prestes, quando o cargo de Secretário de Agricultura era ocupado por Fernando Costa, foi proposta a criação de órgão ainda mais amplo que, ao lado das pesquisas e medidas de defesa relativas à sanidade vegetal e, também, se dedicasse a objetivos semelhantes na área animal.

Assim, em 26 de dezembro de 1927, sob a Lei nº 2.243, era criado o Instituto Biológico de Defesa Agrícola e Animal, pertencente à Secretaria da Agricultura Indústria e Comércio que, e 1937, passou a denominar-se Instituto Biológico (IB).

Arthur Neiva com seu espírito de luta conseguiu seu intento e, ainda mais, fez implantar o Regime de Tempo Integral (esse regime, obriga os pesquisadores trabalharem em tempo integral na instituição, não podendo exercer outras atividades que não aquelas de pesquisa em seus laboratórios), sua primeira aplicação, no Instituto Biológico, tão logo foi criado.


Dividido, mais um só

O Instituto cresceu rapidamente, não tardando o aparecimento de diferenciações nas mais diversas especialidades - inclusive algumas não previstas em sua estrutura inicial. Na reforma de 1934, o Instituto absorveu a Defesa Sanitária Animal, além de ganhar mais seis seções. À estrutura de pesquisa ficavam agregados dois serviços de aplicação - o de defesa sanitária animal e o de defesa sanitária vegetal.

O Instituto Biológico localizava-se, inicialmente, em vários prédios adaptados e distantes uns dos outros Rua Brigadeiro Luiz Antonio, Rua Marques de Itu, Rua Florisbela, hoje Nestor Pestana, Rua Washington Luiz, Rua Pires da Rio, Rua Pires da Mota e na Cidade de Santos, fato que provocava, às vezes, inconveniências operacionais.


Para que se tornasse real

Em 1928 foi doada uma área de aproximadamente 239.000 m² para a construção do Instituto. Era uma área pouco valorizada, conhecida como "Campo do Barreto" que englobava, também, parte do parque do Ibirapuera. Era uma várzea cheia de pássaros e todo esse conjunto era chamado de Invernada dos Bombeiros, cortado pelo Córrego do Sapateiro. Essa área é hoje definida pela Av. Ibirapuera, Av. Brasil e Conselheiro Rodrigues Alves. O terreno para a construção do Instituto Biológico foi permutado por um terreno de propriedade municipal (Parque Fernando Costa), situado à Av. Água Branca, esquina da rua Sarapuhy, hoje Rua Ministro Godoy, distrito Perdizes. Assim, foi autorizada a permuta. "Fica a Secretaria da Fazenda e do Tesouro do Estado autorizada a fazer a permuta de quinhentos e cinqüenta 1.000 m quadrados de terreno pertencente ao patrimônio do Estado contidos na área da Invernada do Corpo de Bombeiros (Invernada dos Bombeiros), no distrito de Villa Mariana, no município e comarca da Capital, com 124.000 m², pertencente à Municipalidade da Capital, contidos na área dos que constituem a Escola e Bromologia, à Av. Água Branca, distrito da Lapa, também no município e comarca da Capital. Palácio do Estado de São Paulo, em 20 de janeiro de 1928. Julio Prestes de Albuquerque".


Começa a caminhada para que o ideal fosse concretizado – Obstáculos e Ações

Em 1928 iniciou-se a construção do prédio sede, localizado à Av. Conselheiro Rodrigues Alves, 1252 - São Paulo – Capital, que demorou 17 anos para ser concluído, sendo inaugurado em 25 de janeiro de 1945 com a presença de Fernando Costa, interventor no Estado.

Henrique da Rocha Lima (1879/1966), que assumiu em 1933 o cargo de Diretor Superintendente do Instituto Biológico, lutou bravamente pelo término da obra, como conta em vários artigos publicados na revista "O Biológico". Casado com a filha de Fernando de Souza Costa conseguiu junto ao sogro o término de tão sofrida caminhada.

Em novembro de 1930 o Instituto Biológico "abrigou 800 soldados e respectiva cavalhada", 5º batalhão de engenharia. Esses homens dormiam no edifício em construção. O primeiro andar era utilizado para o preparo de alimentos e alguns homens dormiam no próprio Instituto. O IB, com várias tentativas da retirada do batalhão, conseguiu esse intento em dezembro de 1930.

Em 1932, São Paulo lutava contra as forças do governo, o Instituto ainda em construção, teve seu prédio utilizado como acampamento dos soldados gaúchos (Fig. 4). Em 1937, temendo que o prédio fosse ocupado por Getulio Vargas, haja vista durante a revolução de 1930 também os soldados fizeram deste espaço seu território, Henrique da Rocha Lima, 2º Diretor do Instituto e alguns de seus discípulos deslocaram-se rapidamente de seus laboratórios nas casas alugadas e ajustaram-se aos meios que podiam, tomando posse do prédio ainda em construção. Naquele tempo ainda, em salas do 1º andar, senhoras da região ensinavam enfermagem para aquelas que se dispunham a ir para os campos de combate a fim de atuarem com enfermeiras.


Fig. 4 - Soldados durante a Revolução de 1932 no prédio do IB em construção.

Com o aparecimento da encefatite epizoótica foi resolvida a instalação, em 1938, dos laboratórios de Veterinária no edifício central: Anatomia Patológica, Fisiologia, Zoologia, Química, Entomologia, as seções de Expediente, Contabilidade, Tesouraria, Vigilância Animal e Vegetal, Fotografia e Depósito de Inseticidas foram transferidos do prédio da Av. Brigadeiro Luiz Antônio e grande parte das instalações da Rua Marques de Itú. Somente a Biblioteca continuou nesse prédio, pois a falta de estantes no Instituto Biológico prejudicava esse fato. Os laboratórios Rua Pires do Rio não tardaram a se deslocarem também para o IB.

A luta pelo término da construção do prédio, símbolo de um grande combate que atravessou as revoluções de 1930 e 1932 e ao golpe de 1937, resultou na indissociável imagem do Instituto e sua sede, utilizada até hoje nos papéis timbrados que emite.


Os espaços

O complexo do Instituto Biológico ocupava uma área enorme indo até o então hoje Planetário no Parque do Ibirapuera (Fig. 5). Nesse espaço, antes da construção dessa parte do Parque, o Instituto possuía locais para estudos de doenças das plantas e dos animais. Bovinos, suínos, aves etc, eram trazidas pelos criadores para que os pesquisadores do Instituto detectassem as doenças que acometiam seus animais.

 
Fig. 5 - Esquema e maquete do terreno ocupado pelas
várias unidades do Instituto Biológico.

Onde é hoje a Bienal, ficava o campo de futebol do Biológico Futebol Clube, local em que jogadores de vários times, nas décadas de 30 e 40, vinham fazer seus treinamentos. Muitos jogos foram realizados no campo do "Biológico Futebol Clube". A arquibancada localizava-se atrás da Bienal, sendo essa derrubada há cerca de 25 anos atrás.

No Governo Jânio da Silva Quadros, todo o terreno que ficava além da atual Av. 23 de Maio foi cedido para a construção da continuação do parque para a comemoração do IV Centenário de São Paulo.

O prédio onde hoje se localiza o DETRAN foi construído para abrigar a Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo. Porém, o então Secretário não quis o local que chegou, inclusive, a ser oferecido ao Diretor do Instituto Biológico, Dr. Paulo da Cunha Nóbrega, que não aceitou a oferta, pois naquela época, o que se tinha era o suficiente. O terreno que fica a seguir do DETRAN foi cedido pelo governador ao Centro Acadêmico 11 de Agosto supondo-se ainda pertencer a eles. As divisas do terreno do Instituto Biológico ultrapassavam os eucaliptos que margeavam a Av. 23 de Maio. Desses, restaram somente alguns exemplares que possuem quase a mesma idade do Instituto Biológico, mas foram retirados em 2003 para obras da Prefeitura.


O marco cor-de-rosa

O edifício principal, projetado pelo arquiteto Mário Whately, destaca-se pelo estilo "art déco", movimento adquirido por meio da concepção artística européia na década de 30 (Fig. 6). Esse mesmo estilo foi utilizado em outros projetos arquitetônicos importantes na cidade de São Paulo, como a Biblioteca "Mário de Andrade", Viaduto do Chá, ambos no centro. De presença marcante no cenário arquitetônico da São Paulo dos anos 30, o Instituto Biológico ressalta-se de forma monumental, permitindo-o a incluí-lo entre os exemplares mais importantes da primeira modernidade na arquitetura paulistana. Em 1939, Dácio A. de Morais Junior assume a obra.


Fig. 6 - Prédio do Instituto Biológico.

O material utilizado para a construção do prédio foi dos mais requintados. Em 1928, a Sociedade Anônima Fábrica Votorantim já era um de nossos parceiros. O mármore "Lioz" – importado, português, reveste as paredes e os pisos dos saguões de todos os andares; a argamassa teve sua receita assim determinada: arenito vermelho, cal, cimento branco "Medusa" e mica. Assim, o prédio sede, o biotério central, os prédios do Laboratório de Bioquímica Fitopatológica e dos vários laboratórios da área animal (esses últimos eram cocheiras no passado), a carpintaria e parte da garagem foram cobertas com esse tipo de argamassa; os lavatórios e bacias dos sanitários eram de porcelana esmaltada "Standart" tipo Novesia, importadas dos Estados Unidos (foram trocadas em 1978); pisos dos banheiros e do corredor do 1º andar (ainda preservado) eram ladrilhos de grés cerâmico, cor cinza de forma exagonal de fabricação da Companhia Cerâmica Brasileira (os pisos dos banheiros foram trocados em 1978); os caixilhos das janelas, em ferro fundido, foram confeccionados pela Escola de Artes e Ofícios do Estado; os pisos dos corredores e de algumas salas são de Ipê, colocados sobre argamassa mista; o piso nos laboratórios era de linólio americano, de cor verde escuro, combinando com as paredes que eram do mesmo tom (hoje ainda são vistos alguns laboratórios com esse tipo de piso); a balaustrada externa de granito vermelho de Itú, SP; as portas com batentes de Cabreúva, SP; nos corredores, no alto das paredes, tinha-se relógios "Siemens"; os vitrais em ladrilhos de vidro importados tipo "Nevada" (foram trocados em 2002 por estarem, na maioria, rachados e quebrados); o anfiteatro "Rocha Lima" tem estrutura de peroba (Fig. 7); o revestimento do terraço possuía uma camada de isolante térmico de "Spachonit", uma camada de feltro betuminoso, chapas de cobre com juntas dobradas, uma segunda camada de "Mesphalt" e uma 2ª camada de feltro betuminoso, lajes com juntas de asfalto; as calçadas com placas de arenito rosa colocadas com argamassa de cimento, cal e areia sobre base de concreto, foram também trocados, por motivo de infiltrações em 1978.


Fig. 7 - Auditório "Rocha Lima".


Ampliando os espaços para a pesquisa

Em 1928, foram criados dois postos de expurgo para o café, um na Cidade de São Paulo e outro em Santos, com a finalidade de manter a vigilância e combate à broca do café (Fig. 8).


Fig. 8 - Unidade do Instituto Biológico em Santos, SP.

A necessidade de ampliação de seus campos experimentais levou o Instituto Biológico, por meio da Fazenda do Estado de São Paulo, a adquirir, em 1937, a Fazenda "Matto Dentro", símbolo da interiorização das pesquisas, com 112,5 alqueires, localizada no distrito de Paz da Conceição, Município de Campinas.

Da senzala aos laboratórios de hoje, a Fazenda "Matto Dentro" (Fig. 9) testemunhou os tempos áureos dos ciclos da cana-de-açúcar e do café, passando pela revolução verde e o desenvolvimento científico gerado em seus espaços pelo Instituto Biológico e que rapidamente espalhou-se pelo Estado.


Fig. 9 - Fazenda "Matto Dentro" localizada no
Município de Campinas, SP.

Como exemplar representativo da arquitetura rural do início do século XIX, em maio de 1982, a sede da antiga Fazenda foi tombada pelo Condephaat como monumento de interesse histórico-arquitetônico.

O Decreto Estadual nº 27.071, de 1987, determinou que a área ocupada pela Fazenda Experimental Mato Dentro do Instituto Biológico passasse a constituir o Parque Ecológico "Monsenhor Emílio José Salim". Os laboratórios do IB foram mantidos em uma área de aproximadamente 60 alqueires onde são desenvolvidas pesquisas e fornecidos serviços voltados para a sanidade vegetal das principais culturas de importância econômica. Atualmente esses laboratórios estão vinculados ao Centro Experimental Central do Instituto Biológico (CEIB), unidade criada na mais recente reforma organizacional ocorrida em 2002.

O Instituto Biológico também conseguiu a Fazenda dos Cristais, em Jundiaí, SP, para experimentos com porcos no campo de vacinas. Também, nessa Fazenda, estava instalado um enorme tanque para descarrapatinização de bovinos. Pequenos sitiantes levavam seu gado para que fossem banhados com produtos próprios para esse fim. Mais tarde, foi transformada numa colônia agrícola do Hospital do Juqueri.

Em 1978, mais uma fazenda, em Caconde, SP, faz parte do Instituto Biológico, durante 5 anos e que foi utilizada para experimentos tanto da área animal como vegetal. Após esse período, retorna para o Ministério da Agricultura.

Em 1981/82, é incorporada ao IB uma Fazenda Experimental em Presidente Prudente para experimentos na área de sanidade em citros, além de 11 Laboratórios Regionais distribuídos da seguinte forma: Araçatuba, Bastos, Bauru, Descalvado, Marília, Pindamonhangaba, Presidente Prudente, Registro, Ribeirão Preto, São José do Rio Preto e Sorocaba.


A pesquisa intrínseca participando da formação do cientista

O Instituto Biológico foi o primeiro centro de formação de cientistas e de debate científico no Estado de São Paulo. Aqui foram criadas a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Sociedade Brasileira de Entomologia.

Da descoberta da bradicinina à produção de vacinas como as que combatem a doença de Newcastle, a febre aftosa e a peste suína, a história do IB é uma seqüência de importantes contribuições à sociedade. Além de seu papel nas campanhas sanitárias de defesa animal (contra a febre aftosa e a raiva, por exemplo), o IB foi fundamental na identificação e no combate à broca do café, quando introduziu no país o controle biológico por meio da vespinha de Uganda. Teve também papel central no combate às pragas do algodão (lagarta rosada, broca do algodoeiro) e no controle da leprose dos citros, da verrugose da laranja doce, da mancha parda, da sorose, da podridão do pé e da tristeza dos citros.

Coube-lhe também iniciar no país o combate a pragas de vegetais por pulverização aérea, feita por uma funcionária do IB, Ada Rogato. Ressalta-se aqui que Ada Rogato foi a primeira aviadora brasileira que, além de praticar acrobacias foi pioneira na aviação agrícola, pilotando o avião paulistinha que Rocha Lima nominou Gafanhoto por ter sido utilizado em campanhas contra as chamadas nuvens de gafanhoto.


Desenvolvimento institucional

O Instituto Biológico tem como missão desenvolver e transferir conhecimento científico e tecnológico para o negócio agrícola nas áreas de sanidade animal e vegetal, visando a melhoria da qualidade de vida da população e de suas relações com o meio ambiente.

Seu grande desafio como instituição, hoje, é aliar um histórico de contribuições a um presente que exige excelência e prontidão de resposta a uma sociedade em profunda transformação, com alteração no perfil do controle das pragas e doenças, com interferência de fatores relacionados ao modelo de desenvolvimento econômico, às alterações ambientais, às migrações e ao intercâmbio internacional.

Atuando na solução de problemas sanitários da agropecuária paulista e brasileira, o IB ganhou projeção internacional ao longo de seus 78 anos de existência. Nesse tempo, passou por várias reformas em sua organização. A mais recente aconteceu em 2002, quando foi reorganizada a Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios - APTA, agência que coordena os institutos de pesquisa científica da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. Nessa reforma, o Instituto Biológico foi privado de várias unidades no interior do Estado de São Paulo que, se juntando a outras instituições da SAA, aglutinaram-se em Pólos Regionais. Como patrimônio institucional, restou a sede do Instituto Biológico, em São Paulo, o Centro Experimental Central do Instituto Biológico, em Campinas, e o Centro Avançado de Pesquisa Tecnológica do Agronegócio Avícola (CAPTAA), em Descalvado, e sua Unidade de Pesquisa e Desenvolvimento (UPD), em Bastos.

A demanda da sociedade, presença do Instituto Biológico – 1927-2005

Desde o início da criação do Instituto Biológico, a demanda da sociedade, de agricultores e pecuaristas, teve espaço global nesta Instituição. No correr dos anos, somaram-se os assuntos e, nos dias de hoje, os temas de pesquisa e prestação de serviços apontam para uma dinâmica estabelecida e priorizada pela Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. Os agronegócios, foco da globalização, deram um grande e lógico passo ao desenvolvimento científico e tecnológico do Brasil. As cadeias produtivas, elo estabelecido - agricultura X Instituto Biológico - têm admitido a prospecção de arranjos fundamentais para o desenvolvimento da agricultura paulista.

Para desenvolver estas atividades, o Instituto Biológico conta com uma equipe multidisciplinar de excelência (Figs 9-12). Como formas de capacitação, o MAPA credenciou diversos laboratórios de Sanidade Vegetal (Bacteriologia, Fitovirologia e Fisiopatologia, Micologia, Nematologia, Entomologia, Entomologia Econômica, Controle Biológico, Ciência das Plantas Daninhas), Sanidade Animal (Doenças de Suínos, Viroses de Bovídeos, Doenças Bacterianas da Reprodução) e Proteção Ambiental (Laboratório de Resíduos). Convém mencionar que esses laboratórios, diante de sua forte vocação em diagnóstico e atuação em políticas públicas, possuem habilitação fornecida pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) para participarem dos Programas de Saúde Animal, entre eles: Controle de Raiva dos Herbívoros e outras Encefalopatias, Controle e Erradicação da Brucelose e da Tuberculose, Erradicação da Febre Aftosa, Sanidade Suína e Sanidade Avícola.

Figs. 9-12 - Laboratórios do IB.

A essa somatória de conhecimento, alia-se a produção de bens com esforços direcionados para ações de grande impacto social.

Ao longo dos anos, o IB conquistou a confiança de Médicos Veterinários que buscaram insumos imunobiológicos, produzidos pela instituição, referência padrão de qualidade em níveis internacionais (Fig. 13). Esses produtos são: Antígeno Acidificado Tamponado para o Diagnóstico da Brucelose, Antígeno para Diagnóstico da Brucelose – Prova Lenta, Antígeno para Diagnóstico da Brucelose – Prova Anel do Leite e Tuberculinas PPD Bovina e PPD Aviária.


Fig. 13 - Antígenos produzidos pelo Instituto Biológico.

Outra grande ação institucional refere-se as biofábricas. O Instituto Biológico instalou seis biofábricas do fungo Metarhizium anisopliae que produzem 30 toneladas para o controle biológico da cigarrinha da cana-de-açúcar.

Continuamente, a Instituição recebe profissionais e estagiários das mais diversas áreas do conhecimento para participar de cursos coordenados por seus pesquisadores e, em alguns casos, em conjunto com especialistas vindos de universidades, de outras instituições de pesquisa ou da iniciativa privada.

Com a visão de um presente que determina a importância da parceria, o Instituto Biológico firma diversos convênios. Entre eles pode-se citar o MAPA, o CNPq, a FAPESP, a FINEP, a EMBRAPA, o CEAGESP, o SEBRAE, a Agência Internacional de Energia Atômica da FAO, as universidades nacionais e internacionais etc.

Divulgando o conhecimento

Para o atendimento da demanda da divulgação do conhecimento, o IB publica a revista "Arquivos do Instituto Biológico" que tem como conteúdo artigos científicos que enfocam as áreas de sanidade animal, vegetal, proteção ambiental e atividades complementares. Já a revista "O Biológico", apresenta trabalhos nas mesmas áreas apontadas para os Arquivos, porém sob a forma de divulgação científica. Essas revistas publicam também, além dos artigos dos pesquisadores do Instituto Biológico, trabalhos de profissionais de instituições de pesquisa e ensino de todo o território brasileiro. Por fim, os Boletins Técnicos atendem à área de divulgação científica com foco em atividades do Instituto Biológico.

A promoção de eventos pelo IB é um dos meios de unir a sociedade ao conhecimento científico (Fig. 14). Assim, o IB realiza eventos nacionais como as Reuniões Anuais do Instituto Biológico – RAIB, que reúne especialistas de instituições de pesquisa e ensino de todo o território brasileiro; o Congresso de Iniciação Científica em Ciências Agrárias, Biológicas e Ambientais – CICAM, que une os estudantes universitários, promovendo a sua Iniciação Científica; a Reunião Itinerante de Fitossanidade do Instituto Biológico – RIFIB, que estabelece um elo com a atividade rural e, ainda, inclui a comunidade que o cerca estabelecendo ações que divulgam o conteúdo pragmático de suas realizações.


Fig. 14 - Reunião Anual do Instituto Biológico.

Ainda, como outra forma complementar de divulgação científica, o IB apresenta em vitrine suas atividades no Museu do Instituto Biológico (Fig. 15). Temas de interesse da comunidade estão dispostos com uma textura simples, visando o perfeito entendimento das atividades da Instituição. Os estudantes também têm a oportunidade de entrar em contato direto com o meio ambiente, por meio de visitas monitoras ao "Espaço Natureza", localizado no CEIB (Fig. 16). Iniciado em 1994, o "Espaço Natureza" é um projeto que procura incentivar o estudante para as relações agricultura/meio ambiente como um processo único para se alcançar o manejo sustentável do agroescossitema. Ainda, as coleções científicas especializadas de Hemintologia, Acarologia e Prozoologia (área animal), Bacteriologia, Micoteca, Herbário, Entomologia e de Microrganismos Entomopatogênicos (área vegetal) são freqüentemente consultadas por pesquisadores do país e do exterior.


Fig. 15 - Museu do Instituto Biológico.

Fig. 16 - Espaço Natureza.

Por fim, mas de grande importância, Biblioteca do Instituto disponibiliza um acervo de 100.000 volumes de periódicos, 12.472 livros e 4.000 folhetos cujos conteúdos são de grande valia para os consulentes na área agrícola.

A comunidade presente no Instituto Biológico

Em 20 de março de 2002, por força da comunidade de Vila Mariana, foi tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo – Condephaat, como bem cultural de interesse histórico, arquitetônico e urbanístico, o Conjunto Arquitetônico do Instituto Biológico. O tombamento, cujo processo iniciou em 1995, abrange uma área de 122 mil m2 e envolve onze edifícios - incluindo a sede. O Condephaat incluiu no processo as ruas internas e os 800 pés de café que serviram para as primeiras pesquisas do Instituto.

Em abril de 2004, a comunidade de Vila Mariana, mais uma vez, esteve presente no Instituto Biológico comemorando os 80 anos da "Commissão de Estudo e Debellação da Praga Cafeeira" que deu origem ao Instituto Biológico (Fig. 17). Também em 2004, um grupo de moradores do bairro expressou-se sobre a viabilização do restauro do Instituto Biológico (Fig. 18). A comunidade de Vila Mariana escolheu, então, como coordenadores do restauro os arquitetos Paulo Bastos e Samuel Szpigel que, com uma equipe de profissionais, fizeram um levantamento das reais necessidades do prédio sede e do complexo de laboratórios que se espalham pelo pátio interno do IB. No dia 8 de novembro de 2004, o Governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin, assinou a intenção de aceite do restauro, durante a inauguração do Museu do Instituto Biológico (Fig. 19).

Em maio de 2005, para comemorar esse fato e todo o andamento do processo junto às várias estâncias governamentais, a comunidade composta pelas entidades República de Vila Mariana, Jornal Pedaço da Vila, Fórum de Cultura de Vila Mariana, Associação de Moradores e Amigos de Vila Mariana e o Instituto Biológico organizaram o "3º Instituto Biológico de Portas Abertas", com o tema - A Comunidade e o Restauro do Instituto Biológico (Fig. 20).


Fig. 17 - Homenagem do Instituto Biológico à
Comunidade de Vila Mariana.

Fig. 18 - Antonio Batista Filho, Diretor Geral do Instituto Biológico e Walter Taverna, Presidente da República
de Vila Mariana.

Fig 19 - Geraldo Alckmin, Governador do Estado de São Paulo, Duarte Nogueira, Secretario de Agricultura e Abastecimento, Claudia Costin, Secretaria da Cultura, Márcia M. Rebouças, Diretora do Núcleo de Museu do IB, Luis Madi, Coordenadaor da APTA e Cesar Angelucci, Presidente da AMA-VM.

Fig. 20 - 3º Instituto Biológico de Portas Abertas.

Responsabilidade

O presente trabalho apresenta uma série de dados que contemplam toda a existência do Instituto Biológico. Elabora o porquê de sua criação, traz os personagens que dela participaram e aponta o ator principal, o conhecimento científico e o seu diretor da peça, Arthur Neiva, homem de grande capacidade de se fazer entender. Ele soube tão bem aproveitar o momento exato de apresentar sua peça que, após setenta e oito anos em cartaz não se esqueceu suas raízes. É claro que o desenvolvimento da peça foi se alterando no correr dos anos e novos atores foram apresentando novos papéis elaborados diariamente por um processo dinâmico de atuação para cada momento do desenvolvimento do Estado de São Paulo (Fig. 21). Este artigo evidencia uma pequena parte do sistema de Ciência e Tecnologia, onde a atuação do Instituto Biológico tem lugar marcado. Os atores, pesquisadores científicos, funcionários de apoio e estagiários têm o compromisso com a sociedade de levar avante a história institucional de tão importante órgão do Governo do Estado de São Paulo.


Fig. 21 - Funcionários do Instituto Biológico - 2004.


AGRADECIMENTOS

Agradecemos à Tânia Cristina Penido Paes Manso pela colaboração emprestada.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

Arquivo do Instituto Biológico. Coleção Adolpho Martins Penha
Arquivo do Instituto Biológico. Coleção Arthur Neiva
Arquivo do Instituto Biológico. Coleção Antonio Batista Filho
Arquivo do Instituto Biológico. Coleção Henrique da Rocha Lima
Arquivo do Instituto Biológico. Coleção José Reis
Arquivo do Instituto Biológico. Coleção Vicente do Amaral
CRUZ, B.P.B. Estação experimental de Campinas - 50 anos de vida. Biológico, v.53, n.7/12, p.79-22, 1987.
RIBEIRO, M.A.R. História, ciência e tecnologia – 70 anos do Instituto Biológico de São Paulo na defesa da agricultura 1927-1997. 284p.1997.
SCHMIDT, C.B. & REIS, J. Rasgando horizontes. São Paulo: Secretaria da Agricultura, Indústria e Comércio do Estado de São Paulo, 420p. 1942.

Recebido em 30/3/05
Aceito em 29/5/05

Páginas Inst. Biol., v.1, n.1, jan./jun., 2005

 

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